Accommodados os aventureiros, e tomando cada um conta do que lhe pertencia, preparou-se{91} Matheus Chagas para deixar a aldeia. Não raiavão ainda os primeiros arrebóes da madrugada quando começou a bandeira paulista a sua marcha retrograda, collocando-se gente armada na frente, os prisioneiros amarrados, aggrupados, e cercados no centro, os cavallos e bestas carregadas na retaguarda, defendidos e guardados pelos mamelucos.

Não tinhão ainda sahido de todo da povoação, quando estouros fortes e prolongados se ouvírão, e logo após signaes de incendio que rebentára em varios pontos extremos da aldeia. Crescêrão os fogos amiudados, e uma nuvem espessa de fumaça encheu ao principio os ares, que se aclareárão paulatinamente com as luzes do incendio.

Dir-se-hia dia claro, posto a atmosphera se tornasse cada vez mais pesada e quente. Amedrontárão-se os aventureiros, ignorando se o acaso ou deliberada intenção dos gentios causára o incendio ameaçador. Apressárão-se{92} em desamparar a aldeia, recommendando Matheus Chagas aos aventureiros se prevenissem de ciladas.

Multiplicavão-se as chammas, incitadas por um vento fresco do Norte que rijamente assoprava. Illuminárão-se horrivelmente a aldeia, os campos e florestas adjacentes. Gritos espantosos atroárão os ares como se formassem uma infernal orchestra. Estalavão os tectos e portaes das casas, rolavão por terra pedaços dos edificios, telhas soltas, paredes desmoronadas. Atopetavão-se as ruas com destroços, que impedião a livre passagem, e davão immensos trabalhos aos aventureiros para as atravessarem.

Parte d'elles se semeava já por fóra da povoação, e a retaguarda tentava dentro ainda evadir-se ao perigo, e ajuntar-se aos que marchavão adiante.

A numerosos gritos soltados de longe, e cujo sibillo augmentava o pavor produzido{93} pelo incendio, e causado pelas ruinas do fogo, e pelas chammas, que esclarecião a aldeia e envolvião a parte superior do horizonte em nuvens negras, descortinárão os olhos dos aventureiros paulistas massas armadas de Guaranys, que se lhes puzerão por diante; lhes atacárão os flancos, apparecêrão por detrás, e lhes circumdárão os caminhos.

Travou-se uma peleja sem ordem, sem direcção, e nem regularidade. Cada um dos aventureiros tratou de combater como pôde, apercebendo-se emfim da cilada que lhes tinha sido traçada, e descobrindo que se havião introduzido surrateiramente na aldeia e durante a noite, gentios de fóra, para coadjuvarem os que devião correr em soccorro do arraial. Nem lhes era dado avaliar o numero dos inimigos e adivinhar o resultado do combate. Balas de espingardas, settas disparadas, tiros de funda, abrião-lhes as fileiras, zunião-lhes pelos ouvidos, ferião-lhes companheiros,{94} matavão-lhes amigos, ao lado, atrás, adiante, e perto. Pancadas de tacapes pesadas, golpes vibrantes de espadas, sangrias de faca e punhal, succedêrão ao primeiro ataque, e lhes trouxerão a luta de corpo a corpo, e de homem a homem, que é a mais cruel e ceifadora de vidas.

Terrivel espectaculo, que illuminavão por vezes as chammas estridentes do incendio devorador da aldeia, que parecia desabar, estorcendo-se em angustias doridas. Echoavão gemidos, exclamações, algazarras, sons de ferros, e estrepito de fusilaria.

Tropeçava-se por cima de homens vivos e de cadaveres. Esbarrava-se com cavallos e mulas carregadas. Cutilavão-se mutuamente Portuguezes e mamelucos, Carijós e Guaranys, sem quasi se conhecerem. Durou a peleja até que a aurora radiou risonha, e embranqueceu de todo o firmamento.

Notou-se então uma scena tristissima de desolação.{95} Desde as ruas extremas da aldeia até não pequena distancia do campo contiguo, aonde chegára a vanguarda dos aventureiros, cobrião o solo cadaveres de homens e de animaes sem conta; misturados com cargas, armas dispersas, e objectos desgarrados; inundados de sangue, e cobertos muitos com restos do incendio, elevados pelo vento ao ar, e cahidos depois sobre os proprios combatentes.