—Não, não,—gritou Manuel.—Mato-me antes. O que é a vida? o que vale para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence igualmente ao mundo, e á sociedade humana?

Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.

—Mudança de culto,—disse-lhe ella,—exige convicção firme, e não subito hallucinamento.{154} Deve ser obra da razão, não do coração. O espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...

—Não a temais,—retorquio-lhe Manuel.—Permitti que eu vos acompanhe para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas palavras.

Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior agitação do espirito.

Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes. Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes. Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade,{155} considerando-os como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.

Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no espirito, e o apouquentou bastante.

Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.{156}

Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos, que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança. Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.

Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno de 1639.{157}