[AO LEITOR]

Encontra-se na Biographia luzitana do abbade Diogo Barbosa uma succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em São Paulo (Brazil), pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma Historia da America, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pró da acclamação d'el-rei D. João IVº, publicada em Leyde (Hollanda), no anno de 1641, com o titulo de{II} Prognostico y respuesta á una pergunta de un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal; condemnado pelo tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, por apostata da religião catholica, e casado com mulher schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer de varias tradições; pela violencia, conforme outras não menos procedentes.

Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro, accrescenta que pertencêra á companhia de Jesus em São Paulo, e fôra garroteado no auto de fé de 15 de Dezembro de 1647.

Outros escriptores, que procurárão lembrar-lhe tambem o nome, e nós particularmente no supplemento annexo á obra dos Varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes,{III} repetírão sómente o que avançára o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos lográrão mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido.

Parece pois evidente que se não poderá jámais esboçar um estudo biographico e regular ácerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos de um varão tão distincto, e cuja existencia é todavia incontestavel.

No desejo porém de torna-lo conhecido dos leitores, e de pôr a limpo a sua original e extravagante personalidade, traçamos proceder em relação ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legárão todavia menos incompleta os autores passados.

A chronica de Cortereal terá assim uma{IV} imitação na de Manuel de Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nação e da sociedade portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastião até o jugo castelhano. Encerrará esta a descripção dos successos occorridos durante o seculo XVII em São Paulo e nas missões jesuiticas de Guayrá; em Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na emigração dos judêos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento da Inquisição.

Confundir-se-hão no mesmo quadro a historia real e a imaginação aventureira. Não é este o ramo mais popular da moderna litteratura, a formula mais estimada pelo publico da actualidade?{1}

[MANUEL DE MORAES]

[CAPITULO PRIMEIRO]