Preparou-se para partir, abandonando Hollanda para sempre. Não podendo seguir por terra e embarcar-se em qualquer porto de França, por causa do dominio castelhano na Belgica, tomou passagem em um navio hollandez que seguia de Rotterdam. Recebeu cartas de recommendação do padre Antonio Vieira para o provincial dos Jesuitas em Portugal, para alguns funccionarios importantes e fidalgos distinctos em Lisboa, e particularmente para Dom Francisco Manuel de Mello. Despedio-se do Jesuita seu protector, que tinha de partir para Munster, no serviço do seu soberano.
Não quiz esquivar-se á obrigação de dizer o ultimo adeos áquella que lhe dominára em vida o coração e o espirito, e o hallucinára{228} a ponto de perder a sua razão e comprometter a sua alma. Seguio para Amsterdam, que lhe recordava acontecimentos que lhe parecêrão felizes a principio, e se lhe tornárão depois tão dolorosos e infaustos. Dirigio-se para o cemiterio, aonde parava a sepultura querida. Ornava-a uma columna de marmore, cercada por uma grande cadeia de ferro. Em grandes lettras douradas se esculpira o nome de Beatriz de Moraes, com a data do seu nascimento e da sua morte. Pallidas roseiras lhe vicejavão em torno, e um cypreste sombrio lhe deitava por cima os galhos dispersos e desordenados. Rodeiavão a grade pequenos arbustos, brotando flôres merencorias nas estações competentes.
Impressionárão-lhe profundamente o aspecto do tumulo, o silencio que reinava, e as reminiscencias que lhe assaltárão o animo. Approximou-se com respeito, e rebentárão-lhe dos olhos prantos amargurados. Ajoelhou-se,{229} dirigio suas preces a Deos, e atirando-lhe em cima ramos de flôres saudosas, exclamou enternecido:
—Mulher adorada! uma fatalidade inesperada nos reunio, uma louca paixão nos enlaçou, um crime nasceu do nosso amor! Fomos mutua causa das nossas desditas e calamidades. Assim nos perdôe Deos no mundo da eternidade, para o qual já te passaste, e aonde não tardarei a seguir-te! Só Deos é grande!
Lançou-lhe um derradeiro olhar. Tinha cumprido com os seus deveres. Affrontára a provança cruel, e a dominára com força.
Embarcou-se em Rotterdam para Lisboa.
Atirárão os mares por vezes o miseravel baixel sobre as costas de França e de Inglaterra, ao atravessar o canal perigoso que as separa, e aonde os ventos se encrespão com tanta furia, e se desencadeião com espantosa e repetida violencia.{230}
Dobrado o cabo de Finisterra, não o poupou o golpho da Gasconha, celebrisado pelas suas constantes tormentas. Ondas precipitadas, correntes de agua, e furacões desordenados, parecião pretender devorar o galeão e os seus hospedes imprudentes.
Vencêrão os nautas todos os perigos. Ao entrarem porém no Oceano, dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellião, enviando-lhes ventos impetuosos de leste, que os arrastavão para o largo. Mais de quarenta dias despendêrão até que lograssem avistar as montanhas de Cintra. Aproárão á barra do Tejo, com os mastros do galeão partidos, velas rasgadas, cortado em pedaços, e falta quasi completa de alimentos e aguada. Dobrárão felizmente o cabo, e penetrárão dentro das aguas mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigião.
Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos e minuciosos{231} interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao tomar conhecimento das recommendações do padre Antonio Vieira, o acolheu com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto.