Anciosos de confissões mais amplas do réo, applicárão-lhe novos tormentos para o obrigarem pela violencia ás revelações necessarias. Suspendêrão-lhe o pescoço a uma argola pregada no muro, chamada gonilha, que levantando o corpo por uma fórma perpendicular, produzia-lhe uma posição dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade média. Escalárão-lhe depois{266} as costas e os peitos com azorragues de arame, que o ensanguentárão todo.
Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada á sua sorte. Repetia constantemente as mesmas declarações, e não offerecia elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos.
Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos agudos, á qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima. Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na cópia de sangue que lhe rebentava por todos os póros.
Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma esteira de palha mais macia, é tratado com mais cuidado para se lhe não esvair a vida antes da execução da sentença, e não escapar assim ao castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio.
Lavrou-se a sua sentença. Confirmava em{267} todas as suas partes a do anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de fé, coberto com as insignias do fogo, e a ser garroteado na praça publica por apostata, profitente e obstinado.
Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da decisão. Intensa desesperação e despeito violento se apoderárão dos padres. Nem-um deixou de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecêrão proprios a nullificar a sentença do tribunal do Santo Officio. Applicárão-se os ultimos esforços para lograr d'el-rei uma ordem terminante em pró do infeliz noviço. Cartas do padre Antonio Vieira, conselhos e insinuações do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus secretarios de estado, e do seu escrivão da puridade, rogos e empenhos dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcançava todavia d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto.
Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate{268} uma idéa aventurada. Conhecendo uma irmã de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnação, viuva de um Portuguez que de São Paulo mudára a sua residencia para Lisboa, e carregada de numerosa familia, preparou-a para se lançar aos pés do soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus filhos o perdão do noviço. Concertou com o confessor d'el-rei em facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom João IVº e Dona Luiza de Gusmão seguissem para o oratorio a receber a communhão sagrada.
Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os paços reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma porta particular, achárão-se na passagem dos soberanos no momento designado.
—Piedade! piedade!—gritou toda a familia, arrastando-se aos pés de Dom João IVº,{269} e de sua augusta consorte, agarrando-os com força, e molhando-os com pranto acerbo e copioso.
Enternecêrão-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado profundamente, e não pôde proferir palavra. A rainha, banhada em lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial escripto, supplicando a graça de Manuel de Moraes. Representou-se a scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra não tinhão prerogativa mais bem aceita do céo e mais humana que o perdão, que os igualava quasi á Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados.