O tempo, os trabalhos, as peregrinações{275} e soffrimentos lhe havião por tal feitio transfigurado a physionomia, que o não conhecêra Dona Clara, e para o tratar como irmão necessitára de que lhe affirmassem estar em presença de Manuel de Moraes. Abraçando-se ternamente, entretiverão-se no meio de soluços repetidos e de lagrimas abundantes, ácerca dos pais já fallecidos, das irmãs, e parentes domiciliados em São Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das reminiscencias da mutua mocidade. Revivêrão saudades que pungião o coração, e o cortavão dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz passado lhes manifestava a profunda miseria presente.

—Meu respeitavel pai! minha querida mãi e verdadeira santa,—exclamava a miudo Moraes.—Estais ambos já no seio da eternidade, e em presença de Deos. Breve vos irá ahi encontrar o vosso filho desgraçado. Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu{276} sem duvida para os vossos males na terra, mas que padeceu tambem muito!

Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel prostrar mais as forças do infeliz noviço, que só deixou a irmã quando os empregados do Santo Officio a coagírão a abandona-lo, e sahir dos paços terriveis da Inquisição.

Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto lhe não occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a desattendesse, quanto até aquelle momento lhe não constára haverem os juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal designado para o auto de fé e execução da sua sentença, preferivel era que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a sua alma inteira, e recebendo a sua absolvição para se passar á{277} eternidade tranquillo e sacramentado.

Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com franqueza os desejos e aspirações mundanas que lhe havião assoberbado o espirito, os crimes que praticára no seu desvairamento, e as idéas e pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento solemne. Orárão ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lançou-lhe o padre a benção consoladora, e recommendou-o á misericordia do Omnipotente.

Estava-se já em vesperas do auto de fé annunciado, e nem-uma deliberação tomára ainda o tribunal do Santo Officio ácerca do aviso expedido pelo escrivão da puridade d'el-rei em pró de Moraes, posto o provincial dos Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento.

No dia porém anterior ao designado para{278} a horrenda ceremonia, quando os aprestos todos se havião já concluido, correu voz emfim que não ousára o tribunal do Santo Officio affrontar o perdão que Dom João IVº concedêra, bem que singular e desusado. Assentárão os juizes que darião execução ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto de fé como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir ao cumprimento das sentenças relativas aos demais accusados.

Raiou o dia fatal. Cobrírão-se desde a madrugada as casas dos habitantes de Lisboa sitas nas ruas e praças que devia atravessar a procissão, e ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas acesas. Guarneceu-se o chão, que nem calçado era n'aquelle tempo, com folhas viçosas de arvores. Brilhárão com velas e lampadas, e ornárão-se com flôres odoriferas os oratorios, que se semeavão pelos cantos das{279} ruas. Derão signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos templos, que saudavão o triumpho da Igreja catholica, que salvava a fé e o dogma, castigando os máos, e amedrontando os tibios e descrentes. Desfilárão soldados, occupando varios pontos proximos á praça de Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afóra as pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado ás execuções das sentenças.

Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os condemnados ás chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devião supportar o supplicio do garrote, aterrorisavão as vistas. Vultos cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com grandes cruzes, que se lhes gravárão nos peitos, os rodeiavão em copiosa quantidade.

Á hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios{280} e conselheiros de estado, e a côrte toda, tomárão os seus lugares, occupando um edificio levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da época. Por toda a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma multidão de gente miuda, que não falta a quaesquer espectaculos de dôr ou de alegria.