Composto e impresso na typographia
DA
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
Rua Augusta, 44 a 54
LISBOA[{pg. V}]
Á
MEMORIA
DE
ALEXANDRE HERCULANO
mestre e amigo[{pg. VI}]
[{pg. VII}]
[ADVERTENCIA]
«Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazião, assi erradas, como dos valentes & nobres feytos. Dos erros porque se delles soubessem guardar: & dos valentes & nobres feytos aos bõos fezessem cobiça auer pera as semelhentes cousas faseram.»
Coronica do Condestabre.
A historia é sobre tudo uma lição moral: eis a conclusão que, a nosso vêr, sáe de todos os eminentes progressos ultimamente realisados no fôro das sciencias sociaes. A realidade é a melhor mestra dos costumes, a critica a melhor bussola da intelligencia: por isso a historia exige sobretudo observação directa das fontes primordiaes, pintura verdadeira dos sentimentos, descripção fiel dos acontecimentos, e, ao lado d'isto, a frieza impassivel do critico, para coordenar, comparar, de um modo impessoal ou objectivo, o systema dos sentimentos geradores e dos actos positivos.
O desenvolvimento do criterio racional e o predominio crescente dos processos proprios das sciencias, baniram os modelos antigos e fizeram da historia um genero novo. Nem os discursos moraes ou litterarios sobre a historia, á maneira do XVII[{pg. VIII}] seculo, nem o doutrinarismo secco do XVIII que sobre factos e instituições mal conhecidos construia systemas geraes chimericos, nem a opinião, muito seguida em nossos dias, de considerar a historia unicamente nos seus phenomenos exteriores, averiguando eruditamente as epochas e as condições dos successos, merecem, a nosso vêr, imitação.
Todos estes systemas, porém, ensaios successivos para determinar o genero de um modo definitivo, teem um lado de verdade aproveitavel. Os modelos classicos fizeram sentir o caracter moral da historia; os modelos abstractos, a necessidade de comprehender os phenomenos n'um systema de leis geraes; os modelos eruditos, finalmente, a condição imprescriptivel de um conhecimento real e positivo da chronologia e dos elementos que compõem o meio externo ou phisico das sociedades.[[1]]
Nada d'isto, porém, é ainda realmente a historia, embora todas essas condições sejam indispensaveis para a sua comprehensão. O intimo e essencial consiste no systema das instituições e no systema das idéas collectivas, que são para a sociedade como os órgãos e os sentimentos são para o individuo, consistindo, por outro lado, no desenho real dos costumes o dos caracteres, na pintura animada dos logares e accessorios que formam o scenario do theatro historico.
Estes dois aspectos são egualmente essenciaes; porque a coexistencia independente dos motivos collectivos e naturaes, e dos actos individuaes, é um facto incontestavel na vida das sociedades.