A historia da viagem é um horror; e a desforra do capitão uma prova d'essa frieza sanguinaria, impassivel e cruel, que effectivamente existe no temperamento, quasi africano, do portuguez. Obliterada na sujeição ou na paz, rebentou sempre com o dominio e com a victoria, na guerra. Se taes sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram[{pg. 230}] os seus actos, a sua campanha não obedece a um plano, nem no seu rude espirito cabem as largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a India com a crueldade das suas façanhas, e a dominal-a com o terror dos seus morticinios. Grande sobre as ondas, em lucta com os temporaes, é a imagem da nação, cuja grandeza está na coragem e na teima com que soube vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da India quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do povo portuguez, acreditou e disse que até as proprias ondas tremiam com medo nosso—com medo d'elle!
Navegando porém no mar das Indias, com toda a artilheria carregada de metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma náu de mercadores arabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes á santa Kaaba. Além da tripulação, o navio trazia duzentos e quarenta homens passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de outubro de 1502, «de que me lembrarei toda a minha vida!» escreve o piloto ainda horrorisado, ao recordar como a náu foi cobardemente incendiada, com todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia a bordo um flamengo, que assim refere a occorrencia: «Tomámos uma náu de Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre elles mulheres e creanças; e depois do sacarmos mais de 12:000 ducados de dinheiro e pelo menos 10:000 de fazenda, fizemol-a saltar com os passageiros que continha, por meio de polvora, no 1.º de outubro.» Satisfeito de si, o capitão rumou para Kalikodu. Mandou intimar ao rajah a expulsão de todos os mouros, que eram cinco mil familias, das mais ricas da cidade: dizendo-lhe que qualquer creado[{pg. 231}] d'el-rey D. Manuel valia mais do que elle, Çamorim; e que seu amo tinha poder para fazer de cada palmeira um rei!—Como era de vêr, o rajah recusou; e o capitão que, ao fundear, apresára um numero consideravel de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as mãos, e amontoados n'um barco, foram com a maré varar na praia, levando a resposta do Gama á recusa do afflicto principe.[[83]] Começou logo o bombardeio (2 de novembro). A cidade ardia outra vez; e á população em choros, respondiam as risadas ferozmente cynicas dos marinheiros, abrigados detraz das amuradas dos navios, junto ás peças que vomitavam fogo. Era uma inepcia, uma barbaridade e uma covardia; porque as curtas lanças e as settas dos indigenas não podiam medir-se com as granadas, despedidas de longe, de bordo das náus.[{pg. 232}] O Gama, cada vez mais satisfeito de si, foi-se a visitar o porto amigo de Katchi; e decidiu regressar ao reino por Quilua, d'onde trouxe o ouro com que o rei D. Manuel fez uma custodia para o seu templo dos Jeronymos. Vinha contente da brava desforra que tomára: o Çamorim estava punido!
Deixára o Gama na India uma parte da sua armada sob o commando de Vicente Sodré, personagem tão eminentemente celebre como o proprio almirante, cujo tio era. Fidalgo, este amava as façanhas brutaes e estrondosas; o outro queria mais á pirataria e ao roubo. Com effeito, assim que o Gama partiu da costa do Malabar, o de Kalikodu, invocando porventura direitos de suzerano sobre o visinho de Katchi, exigiu d'elle a expulsão dos portuguezes da feitoria. Mas os ataques repetidos ao poderoso rajah do Canará ensoberbeciam os seus vassallos, e fomentavam a decomposição do systema politico de Hindustan. O de Katchi resistiu, implorando o auxilio do Sodré, que pouco se lhe dava da feitoria, e a abandonou para ir ao corso das náus de Meka: era trabalho de mais proveito e menor risco piratear de parceria com a corôa portugueza nas costas de Adal e da Arabia, á embocadura do mar Vermelho.[[84]] O producto das náus de Meka pertencia, metade ao rei de Portugal, metade[{pg. 233}] ás tripulações: cabendo aos soldados uma parte, aos marinheiros duas, outras duas aos bombardeiros, quatro aos pilotos e outro tanto ao mestre. Pilhavam todos, de braço dado com a Corôa.
Vicente Sodré andava n'isto, ao mesmo tempo que Ruy Lourenço, por sua conta e risco, varria a costa de Zamgebar, caçava navios e cobrava tributos aos sultões.
O dominio portuguez adquiria logo de começo o caracter duplo que jámais perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularisação e de ordem. Era no mar uma anarchia de roubos, na terra uma serie de depredações sanguinarias. Vasco da Gama ensinára o modo de imperar com o fogo e o sangue; Sodré indicava o modo de ceifar no mar, pela abordagem, as náus de Meka. A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do dominio portuguez, cujo nervo eram os canhões, cuja alma era a Pimenta.
Na artilheria, effectivamente, estava o segredo do poder dos invasores da India. Ao tempo em que o Gama voltava da sua segunda viagem, partia de Lisboa uma terceira esquadra (1503, abril) com Affonso de Albuquerque e Duarte Pacheco a bordo. Foram a Katchi acudir ao rajah, na sua guerra com o de Kalikodu, e construiram a primeira fortaleza na India. Albuquerque voltou ao reino; Pacheco ficou em Katchi com as tropas e navios preparados para o ataque. O heroe—porque este bateu-se como uma féra, no seu covil de Kambalaan, nobre, desinteressada e bravamente—desde logo disse que toda a festa havia de ser de artilheria. De que serviam com effeito as armas brancas e de arremeço, principal equipamento dos indigenas, que mal sabiam usar dos mosquetes e bombardas, perante o vomitar distante da metralha? Isto explica[{pg. 234}] a possibilidade da resistencia dos setenta homens de Pacheco, brandamente auxiliados pelos naturaes, contra os cincoenta mil que se dão ao exercito do Samudri-rajah de Kalikodu. As surriadas da mosquetaria auxiliavam decerto, mas a defeza decisiva consistia nas ondas de metralha, que n'um instante varriam as jangadas cobertas de gente que vinham por mar, e as columnas cerradas dos nayres armados de settas e lanças investindo por terra. Mas nem por si só a artilheria seria capaz de resistir á onda massiça das columnas inimigas, se a coragem, a rapidez fulminante das marchas, a ubiquidade—póde dizer-se assim—do primeiro heroe soldado do Oriente não animasse os poderosos meios de defeza. Quatro mezes durou o assedio de Katchi, que terminou pela derrota do Samudri-rajah.
A esquadra de Lopo Soares de Albergaria trouxe para o reino (1505) Duarte Pacheco: um homem simples que, por voltar carregado de feridas, mas leve de dinheiro e diamantes, foi parar á capitania de S. Jorge da Mina, para de lá vir em ferros por capitulos que d'elle deram; para jazer no carcere por muito tempo, e acabar esquecido e pobre. A sorte d'este heroe, diz Goes, «foi de calidade que se pode d'elle tirar exemplo para os homens se guardarem dos revezes dos reis e principes e da pouca lembrança que muitas vezes tem d'aquelles a que são em obrigação.» Pacheco voltou, pois, do Oriente, e na India ficou, por capitão do mar, Telles Barreto com a missão de correr as náus de Meca. A armada trazia para o reino, a bordo, Pacheco—um infeliz!—e uma carga abundante de especiarias e cousas ricas. A côrte, o rei, em Lisboa, quizeram muito mais ás segundas, do que ao primeiro.[{pg. 235}]
Entretanto a este devia D. Manuel a consolidação do seu imperio oriental, incipiente ainda. Pacheco demonstrára aos naturaes e aos arabes que os portuguezes não eram apenas piratas; e podiam fazer mais do que bombardear impunemente uma cidade desarmada, ou tomar náus de indefesos mercadores e romeiros. A façanha de Katchi fôra o baptismo de sangue do novo imperio; e o baluarte, de pé, atestava a força dos novos dominadores.
Mas já do principio, tambem, surgia a ultima das pragas da India: a inveja, a sizania, os odios, a maledicencia, com que, uns aos outros, os homens do ultramar se abocanhavam na côrte; e a inepcia do governo do rei, incapaz de pesar o valor das palavras, de medir o alcance das accusações, e de ser justo e sabio. A lisonja reinava, e sobre ella o favoritismo.
Cinco annos tinham decorrido depois da viagem de Cabral; havia já uma fortaleza em Katchi; estava batido o de Kalikodu; os navios portuguezes pirateavam em liberdade no mar da India; e numerosas náus de Meka iam sendo apresadas. Esboçava-se o futuro imperio, anarchicamente, mas já por fórma tão decisiva, que era mistér organisal-o, dar-lhe uma lei e uma direcção.