Estudemos agora o primeiro, a seu tempo estudaremos o segundo. Todos os soldados de Antonio da Silveira, um capitão que andava pela costa, entre Chala e Daman, trouxeram fato, escravos e dinheiro, com que foram contentes; e assolaram tudo «em tanta maneira que se despovoaram todolos logares da fralda do mar, que pela terra dentro dez leguas não havia gente». Em Barava, destruida por Tristão da Cunha, os barbaros cortaram as mãos e as orelhas ás mulheres para furtarem as manilhas e brincos de ouro. A tomada de Mangaluru ficou celebre: «Foi entrada com muito valor, e dentro d'ella fizeram os nossos espantosas cruezas, não perdoando a sexo nem a idade, nem ainda ás alimarias». D. Paulo de Lima «deu na cidade de Johore (Jor)—escreve á esposa—e assolou-a com o favor divino». N'outro logar os combatentes, empilhados contra os muros, pedem aos da frente que, por amor de Deus, lhes deixem matar[{pg. 272}] um mouro. Á approximação dos portuguezes, despovoam-se as cidades e fogem todos com terror: assim aconteceu em Bintang. Albuquerque sustentou por tres annos, no mar da Arabia, a sua armada com as presas das náus de Meka. Quando os portuguezes occuparam as terras de Bardez «fizeram mui grandes males de roubos, tyrannias, tirando as mulheres e filhas formosas a seus maridos, e outras corrompiam, e as furtavam e tornavam a vender». O de Hormuz queixava-se de que, em paz, lhe tiravam, a elle e aos seus, «parentas de que (os nossos) faziam uso, tornando-as christans a seu pesar». O roubo e a luxuria, alliados aos inimigos, davam lugar a interminaveis guerras: assim os capitães de Malaka originaram as de Johore e do Atchim (Achem); e nas Molucas a cidade de Bachian, despovoada e vasia, foi incendiada, indo-se os barbaros ás sepulturas dos reis furtar os ossos, na esperança de receber por elles, mais tarde, um grosso resgate. Roubando e pirateando á solta, o genio aventuroso dos portuguezes larga as azas, e os exploradores vão até aos confins do mundo, fiados no seu atrevimento. Dois heroes das Peregrinações teem uma historia extravagante. Um, Antonio de Faria, vae á China roubar os sepulcros dos imperadores; outro, Diogo Soares de Albergaria, obtém o titulo de irmão do rei de Pégu, com duzentos mil cruzados de renda e o commando do exercito: é o rei, mas morre assassinado, por ter furtado uma rapariga. Nem se julgue que só pelos confins do mundo oriental portuguez, em Hormuz ou em Malaka, ou só pelas costas, nos seus navios, a furia dos portuguezes se desmanda em ferocidades anarchicas. Na propria Gôa, capital, a vida é um combate. Pelas ruas ha batalhas e cadaveres insepultos. Um governador[{pg. 273}] prende certos salteadores portuguezes, manda-os ferrar no rosto, junto á picota, e degredar para o Brazil: logo um pelotão de amigos se amotina em armas para os libertar, e, não podendo conseguil-o, vae a bandear-se para os mouros inimigos: o governador manda-os desorelhar e amarrar aos bancos das galés; fogem e fortificam-se, e é necessario tomar á força o reducto; prisioneiros, são, afinal, amarrados vivos a elephantes, e esquartejados. É conhecida a tragedia em que a amante de D. Paulo de Lima, precipitando-se das janellas do seu palacio de Pangin, morreu, e o seductor, de espada e rodella, abriu caminho por entre a gente armada que acudia com o marido.

Até dentro das proprias egrejas havia rixas, a tiros: viam-se homens caír assassinados no confessionario, e nos degraus dos altares, á meza da communhão; e uma vez foi morto com um tiro o bispo quando levava a hostia, em procissão, pelas ruas.

Era uma anarchia barbara; e decerto os naturaes lamentavam a má-sorte que os condemnava a supportar tantas crueldades ferozes. Antes o mouro indolente e molle, e o antigo tempo que placidamente corria no seio de uma orgia podre mas calma, nos braços do luxo, da opulencia e dos prazeres! Como demonios vomitando fogo, negros nas suas armaduras, esses portuguezes eram enviados para os desgraçar, para os punir talvez! E levas esfarrapadas de fugitivos, n'um côro unisono de lagrimas e afflicções, acompanhavam por toda a parte a visita dos terriveis forasteiros, que não sabiam fazer-se amar do indio, tão submisso, tão bem disposto para obedecer e servir.

Os fumos da India (como Albuquerque dizia) embriagavam os pobres portuguezes, limitados na[{pg. 274}] Europa á porção congrua do bragal e do aço, sujeitos a uma forçada sobriedade e a costumes mais presos. Na India o fumo desenfreava o animal, que se retouçava delirante nas sedas e nos perfumes, nas fructas e nas mulheres, coberto de diamantes, abarrotado de pardaus de oiro. Breve, porém, esse fumo se dispersou no ar; e a desolação universal trouxe a miseria, o luxo trouxe a fraqueza; e á violencia de barbaros, os portuguezes juntaram a mesquinhez de chatins.[{pg. 275}]

[[93]] «Ao que se achou presente Tristão Alvares, que era feitor do capitão-mór, que não consentiu que ninguem tomasse nada e com João Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capitão-mór, o qual logo tudo mandou qubrar e ameaçar e deu ao capitão e aos fidalgos da repartição primeira a cada um um quintal de prata e a Affonso de Albuquerque tres, porque nunca estes capitães e fidalgos se apartaram para ir roubar.» G. Correia, Lendas, I, 677.

[[94]] O xerafin (as hrafi) = 12 rupia = 1 cruzado. Duarte Barbosa da-lhe a equivalencia de 300 reis.

[[95]] V. Raças humanas, I, pp. LX-I.

[[96]] Não consentia o governador A. de A. que os portuguezes tratassem (negociassem), dizendo que onde tratassem haviam de querer ser poderosos e valorosos e não ser humildes como mercadores, do que se recreceriam males de os matarem e perderem suas fazendas... e tambem que, se os mouros vissem que lhes tomavamos seus tratos nos teriam mór odio, e mais, que os homens, andando tratando, andavam fóra do serviço de Deus e d'Elrey, de que elle daria muitas contas a Deus: pela qual razão não consentia que nenhum homem andasse fóra do serviço d'Elrey. Com esta pragmatica os portuguezes eram muito temidos por cavalleiros e não mercadores, e tão temidos e obedecidos que ainda que um só portuguez fosse em uma almadia, se o topassem naus de mouros, todas amainavam e lhe iam obedecer, mostrando-lhe seus cartazes que tinham para navegar, que todos eram assignados por A. de A.»—Gaspar Correia, Lendas, I, 518.

[[97]] V. Systema dos mythos relig., p. 331.

[[98]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) p. 243.

[[99]] V. As raças humanas, I, pp. 106-10.

[[100]] V. Syst. dos mythos relig., p. 331.

[[101]] Ainda hoje os indios chamam Affonso d'Albuquerque a um certo peixe, do tamanho da corvina, e cujo nome zoologico não podemos apurar. Diz a lenda que o Leão do Mar não morreu: afundou-se, e revive n'esses animaes marinhos. A maxilla inferior do peixe, descarnada, tem o aspecto aproximado das figuras portuguezas do seculo XVI: o barrete, as barbas ponteagudas e longas, etc. Os indios pintam esses ossos, dando-lhes phisionomia humana e guardam os Affonsos de Albuquerques como fetiches.

[[102]] V. Inst. primit., p. 3.

[[103]] V. Ibid., pag. 163.


[III
D. João de Castro]

Morto Albuquerque, as cousas da India voltam ao estado anterior; e abandonada a politica imperial, torna-se á politica maritima; ou antes o dominio fluctua ao acaso, indeciso entre os dois planos. Lopo Soares proseguiu ainda as guerras de conquista, acabando de avassallar Ceylão e as Molucas. Vasco da Gama voltou pela terceira vez á India, como vice-rei, para vêr se podia pôr cobro ás desordens e á corrupção interna das colonias: foi com elle que se inaugurou o systema das successões, mandadas de Lisboa em cartas, que só se abririam por ordem numerica, na falta de cada vice-rei, para prevenir as frequentes desordens, a que dava lugar a transmissão do governo. O almirante morreu tres mezes depois de chegado, succedendo-lhe D. Henrique de Menezes; a este, Pero Mascarenhas, e o usurpador Lopo Vaz de Sampaio, tão celebre pelas suas perfidias.

Nuno da Cunha tomou posse do governo em 1528 em condições difficeis. As torpezas dos governos anteriores tinham sublevado contra nós os monarchas do Hindustan. O de Kambai, ao norte, com o de Kalikodu, inimigo antigo, ao sul, estavam desde tempo em guerra aberta comnosco, de mãos dadas com os mouros, nossos rivaes. O governador, em quem os dotes de guerreiro primavam,[{pg. 276}] decidiu reunir todas as suas forças para ir tomar Diu, na costa do Gujerât, castigando por um modo ruidoso a insubordinação do de Kambai.

Quem via a esquadra com que Nuno da Cunha se foi a Diu, podia avaliar a transformação que trinta annos apenas, ou menos ainda, tinham produzido no caracter dos portuguezes. Ninguem os tomaria já pelos descendentes de Pedralvares Cabral, envergonhados da sua pobreza em Kalikodu; nem sequer pelos piratas domesticados com a disciplina de Albuquerque: pareciam já mouros, na opulencia e nos costumes. A esquadra era das maiores, senão a maior de todas as que se tinham reunido na India: constava de quatrocentas velas, entre as quaes mais de quarenta vasos maiores, e multidão de bergantins, galeaças, fustas e catures. Apoz ella vinham os juncos malaios com mantimentos, e um cardume de zambucos e cotias de taverneiros, gente da terra, vendendo comestiveis e vinho. Capitães e soldados tinham-se preparado como para uma funcção, luxuosamente vestidos, carregados de pedras preciosas e ricas armas tauxiadas. As mulheres enxameavam a bordo, esposas e amantes da gente da guarnição; e além das mulheres os escravos eram numerosos. O governador tinha promettido premios de 1:000, 500 e 300 pardaus aos primeiros que successivamente subissem ás muralhas. Era uma expedição mercenaria, e não uma aventura de bandidos. Isto exprimia a transformação que já se tinha operado; e o governador, apesar dos seus meritos, nada podia contra ella.