A mesma anarchia se usava no ataque; desembarcavam em chusma, e davam-lhes de Santiago, cada um conforme podia e sabia. Dispersavam-se todos com a mira no que podiam roubar, porque esse era o verdadeiro soldo; os dez xerafins um preparo apenas. Geralmente a primeira investida era irresistivel: e logo ao ataque se seguiam o incendio, o roubo, a matança—muitas vezes tambem a reacção dos inimigos. Dispersos, deixando as armas ás portas das casas para irem mais leves a roubar, os soldados eram mortos um a um: como succedera no grande desbarato de Kalikodu, onde morreu D. Fernando Coutinho; como succedia a cada passo, por toda a parte. Com tal systema, a guerra protrahia-se indefinidamente; mas era isso o que convinha a todos, porque d'ella tiravam o melhor dos seus proventos.
Os soldados roubavam, os capitães roubavam com elles, roubavam-nos a elles, cerceando-lhes as rações de arroz avariado e podre. E depois da façanha, em que muitos ficavam, depois de forçados a fugir em debandada, «os capitães-móres das armadas recolhem-se com os focinhos quebrados e com alguns navios perdidos. E ao entrar a barra de Goa, é tanta a bombardada que não ha quem se ouça, e ao sahir em terra tanta pluma e bisarrice, como se deixaram destruido o mundo.[[106]]—E[{pg. 285}] não é bem, accrescenta outra testemunha, a facilidade com que os capitães da India entram em Gôa triumphando, esbombardeando, cheios de plumas e pontas de ouro, deixando muitos companheiros descabeçados nas praias de Calecut.»
Não é bem, decerto; mas não podia ser de outra fórma; e ainda assim a basofia, apesar de ser enorme, não era a peior das fraquezas dos capitães da India. Pedro não obedecia a Gonçalo por não ser tão fidalgo como elle: eram todos pontinhos e biquinhos de honra. Em tendo sido capitães de quatro fustas, não queriam mais saír fóra sem bandeira na quadra; «e alguns não teem mais noticia da guerra que passear ás damas.» O peior, o peior de tudo era que uma vergonhosa corrupção apagava todos os brios. Nuno da Cunha dizia que os homens da India eram como os doentes de colera, tinham os gostos damnados; e outro accrescentava que os viso-reis, ao passarem o cabo da Boa-Esperança, perdiam de todo o temor a Deus e ao rei, como perdem a memoria os que passam o Lethes.
Vimos ha pouco o modo por que se guarnecia uma armada; resta dizer que as capitanias do mar e as das fortalezas eram compradas por dinheiro aos viso-reis: um rapaz imberbe pagou uma d'essas por um serviço de mãos e um saleiro de prata; e duzentos pardaus eram as ordinarias, isto é, o preço usual de uma capitania. Providos no seu lugar, os capitães, que o tinham comprado, faziam-se mercadores e contrabandistas, conluiando-se com os empregados fiscaes, e associando-se com os mouros e judeus. Os capitães de Malaka tinham náus para irem de sua conta, á China, de um lado; a Diu, Chala, Daman, Bassaim, do outro. Os de Hormuz commerciavam por mar[{pg. 286}] com Bengala, com os portos da costa occidental da peninsula, e com o Zamgebar. Como negociantes, á imagem do rei, exigiam tambem em favor proprio um monopolio; e d'ahi vinham as desordens e violencias brutaes exercidas sobre os indigenas. «A guarda do cartaz (salvo-conducto que os navios mouros pagavam para navegar no mar da India) é o credito do nosso Estado», diziam os homens-bons do Oriente; mas por cima de tudo o mais, os capitães, para fazerem prezas, buscavam bicos no exame dos passaportes e roubavam os navios e as cargas. Os lucros do commercio não lhes bastavam, e o roubo vinha engrossar o rendimento das capitanias. Hormuz era, sobre todas, celebre n'esta especie. Arrolamentos de guarnições ficticias, matriculas de praças mortas, para embolsarem o soldo de suppostos soldados, eram casos ordinarios e communs a todas: só d'esta verba um capitão de Hormuz fazia 30:000 cruzados em tres annos. Com os navios succedia outro tanto: fundeados, a apodrecer nas aguas, ou varados na praia, custavam ao thesouro da India o preço de guarnições que só existiam no papel. E estes roubos eram tão vulgares que não havia pejo em os confessar. Um capitão de Hormuz declarava alto e bom som, que não perdoaria um real da somma que se tinha decidido a ganhar—300:000 cruzados.
Um certo Alvaro de Noronha, na mesma praça, accusado, responde que outro tanto fizera o seu antecessor, «que sendo apenas um Lima levára 140:000 pardaus: elle como Noronha, havia de levar mais». O brazão da sua casa ficaria manchado, seus avós corariam, se gente menos nobre lhe passasse adiante em qualquer cousa—até no roubo.
E os crimes dos capitães não podiam ser punidos,[{pg. 287}] porque os viso-reis faziam outro tanto e mais: quando o exemplo vinha de cima, como se havia de condemnar a copia? O governador Lopo Vaz de Sampaio, que era pobre e tinha muitos parentes a proteger, foi a Hormuz para fazer proveito, com doze navios, cujos capitães eram todos seus proximos e afilhados. Diogo de Mello era seu cunhado, e isso o deixou impune dos roubos e males extraordinarios que tinha commettido. Nas deploraveis intrigas com que empolgou o governo a Pero de Mascarenhas, Lopo Vaz, para crear partidarios, usou de todos os meios. Pagaram-se todos os alcances por meio de folhas de suppostos soldos vencidos; e n'esta agoa envôlta muitos enriqueceram. A um certo Nuno Redondo, eximio em falsar sinaes, deveu o governador o alvará com que espoliou o seu émulo.
As principaes rendas dos governadores provinham de diversas especies de peculato: as peitas, ou luvas que recebiam por todos os empregos; as heranças jacentes que roubavam; os cabedaes do indio ou judeu queimado pela Inquisição de Goa; os conluios com os contadores, para extorquirem dinheiro aos funccionarios e litigantes; a falsificação da moda; o roubo do cofre dos orfãos; o fornecimento de material de guerra; as matriculas de soldados mortos ou nunca arrolados; a amortisação dos titulos de divida do governo, comprados no mercado por vil preço, e que nas contas iam mettidos pelo seu valor nominal.
A turbulencia e devassidão dos soldados provinham dos crimes dos commandantes, ficando por isso impunes; os roubos dos governadores authorisavam os dos capitães: mas se o governador fosse punido, não poderia acaso varrer-se o lodo e moralisar-se o dominio? Poderia; mas os governadores[{pg. 288}] tinham a favor da sua corrupção argumentos muito valiosos, e podiam contar com a impunidade. Em Lisboa, salvas momentaneas excepções, considerava-se a India como uma vasta seara a colher. «Cartas se liam pelas portas, em ajuntamentos de cadeiras, que era uma vergonha os descreditos que n'ellas vinham.» Desde o rei até ao mais infimo dos moços da chusma, todos eram commerciantes; e o commercio, cuja mira é o lucro apenas, tolera tudo, pactua com todas as devassidões. Contam que D. Manuel em pessoa achava graça ás manhas e expedientes vis, com que se explorava a India, quando os que de lá vinham justificavam as artes com a riqueza, augmentando a opulencia faustuosa da côrte. Bastante dinheiro e um pedaço de lisonja venciam tudo. Diogo de Mello, de quem já falamos como heroe, foi condemnado á morte pela Relação de Lisboa; mas fiqou em morte civil para S. Thomé; depois para Africa; e, por fim, com dar 500 cruzados para a Arca-da-Piedade, casando suas filhas com as muitas riquezas dos roubos que n'este mundo não pagou.
Pagal-os-hia no outro? Não era de crer; porque o jesuitismo tinha descoberto que a simonia não era peccado, sempre que se seguissem umas certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia, desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer modo, o que se não póde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E além d'esta justificação de todos os expedientes, os padres[{pg. 289}] confessores da Companhia, defendendo os que recebiam luvas, diziam que o nome de peita se entende só do que se toma da parte antes de a despachar, ou de concerto que se faça para o negocio[[107]]. Mas se a parte fôr despachada, póde muito bem gratificar depois: é um agradecimento, e não uma peita.
Não deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se achavam com o céu; mas é fóra de duvida que os escrupulos religiosos não incommodavam a maxima parte, senão quando, na volta para o reino, os assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justiças, que na terra podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: «O imperio romano não se começou a perder, senão depois que se começaram a vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada». Não eram só venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador com dois debrums de latim. As testemunhas custavam em Goa a pardau por cabeça «e se a um ladrão ou salteador, por conhecido que seja, não faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltarão a um viso-rei?» Além d'isso, de que valeriam rigores contra os «roubos, injurias, mortes, forças, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se dizem que elrey N. S. é tão cheio de misericordia, que por males que lhe façam, tudo perdoa e quita?» Gaspar Correia achava, entretanto, indispensavel que se mandasse cortar a cabeça de um viso-rei no caes de Goa.