[[104]] V. Hist. da republica romana, I, pp. 161-2 e 275-6.

[[105]] V. na Hist. da repub. romana, I, pp. 188-95, a descripção da pirataria mediterranea: causas identicas produzem resultados eguaes.

[[106]] V. Hist. da republica romana, I, p. 274.

[[107]] Hist. da rep. romana, II, p. 187.

[[108]] V. Hist. da rep. romana, I, p. 356

[[109]] V. nas Raças humanas, a p. LX-I do vol. I, o estado actual dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I, pp. 75 e segg.

[[110]] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1.º viso-rei

2 Affonso de Albuquerque 1509

3 Lopo Soares de Albergaria 1515

4 Diogo Lopes de Sequeira 1518

5 D. Duarte de Menezes 1521

6 Vasco da Gama 1524 2.º viso-rei

7 D. Henrique de Menezes 1524

8 Lopo Vaz de Sampaio 1526

9 Nuno da Cunha 1529

10 D. Garcia de Noronha 1539 3.º viso-rei

11 D. Estevam da Gama 1540

12 Martim Affonso de Sousa 1542

13 D. João de Castro 1545 4.º viso-rei

14 Garcia de Sá 1548

15 Jorge Cabral 1549

16 D. Affonso de Noronha 1550 5.º viso-rei

17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6.º viso-rei

18 Francisco Barreto 1555

19 D. Constantino de Bragança 1558 7.º viso-rei

20 D. Francisco Coutinho 1561 8.º viso-rei

21 João de Mendonça 1564

22 D. Antão de Noronha 1564 9.º viso-rei

23 D. Luiz de Athayde 1569 10.º viso-rei

24 D. Antonio de Noronha 1571 11.º viso-rei

25 Antonio Moniz Barreto 1573

26 D. Diogo de Menezes 1576

27 D. Luiz de Athayde 1578 12.º viso-rei

28 Fernão Telles de Menezes 1581

29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13.º viso-rei

30 D. Duarte de Menezes 1584 14.º viso-rei

31 Manuel de Sousa Coutinho 1588

32 Mathias de Albuquerque 1591 15.º viso-rei

33 D. Francisco da Gama 1597 16.º viso-rei

Pela constituição do vice reino da India o mandato dos governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos, e se vê do rol supra. Com a nomeação do vice-rei iam, em cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando occorria a morte do governador abria-se a primeira successão, na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram quem governou por successão. O titulo de vice-rei, excepcional a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador desde 1550.

[[111]] J. Freire de Andrade, Vida de João de Castro.


[IV
Summario da derrota. Volta ao reino]

Anarchicamente iniciada, a occupação da India foi, de principio a fim, uma exploração anarchica. A politica maritima e commercial de D. Francisco de Almeida, o imperio de Affonso de Albuquerque, o virtuoso reinado de D. João de Castro, provaram egualmente impotentes para organisar o dominio portuguez no Oriente, de um modo regular e duradouro. Nem a arte, nem a força, nem o santo exemplo, poderam disciplinar a turba dos invasores da India.

Causas intimas, a que de passagem temos alludido, o impediam. A Renascença, apresentando aos homens um sem numero de idéas e impressões novas, desorganisando os systemas, as crenças, as instituições e todo o organismo das sociedades medievaes, abandonou o individuo aos impulsos desordenados da natureza, pondo ao mesmo tempo nos seus actos uma energia affirmativa até alli desconhecida. Heroismo pessoal e naturalista, uma grande explosão de força, a devassidão nos costumes e a anarchia nas idéas, eis ahi em que se resume, por este lado, a Renascença. A França, a Italia, a Hespanha, a Inglaterra e a Allemanha, isto é, a Europa inteira, offerecem ao observador caracteres de phisionomia bastantes para suppôr que, se a qualquer d'ellas tivesse cabido o destino de[{pg. 297}] occupar as Indias, o seu imperio não teria sido melhor nem peior do que foi o nosso.

Porventura, porém, ás nações protestantes que nos succederam com superior fortuna no Oriente poderia a rigidez fanatica ter cohibido um tanto, e o genio mercantil ter mostrado mais depressa os meios efficazes de explorar a India, sem a saquear. A nós faltavam-nos os dois requisitos. O catholicismo não era então—como o era a religião protestante—uma fé intima e absorvente: era uma convicção para uns, uma convenção para outros, uma conveniencia para muitos, e um desvairamento para os defensores intolerantes da fé. Havia decerto uma affirmação religiosa unanime e violenta; mas desapparecera a unanimidade ingenua e espontanea da crença, que radica as religiões. O catholicismo atravessára uma crise, de que saíra malferido; e a violencia com que se impunha, estava denunciando que ficára sendo, antes uma expressão de authoridade, do que uma expansão de sentimento popular. Isto fazia com que o povo, sem renegar o catholicismo, fosse caíndo n'um relaxamento; e que, ficando com a religião, deixasse de lhe dar significação ou importancia moral. Muita devoção e muita devassidão; eis ahi a concomitancia resultante, e universalmente provada pelos costumes das nações catholicas depois da Renascença.

Apesar do catholicismo, podemos, pois, dizer que não havia no dominio da India uma religião capaz de moralisar o imperio, embora houvesse exemplos de uma santidade heroica como a de Antonio Galvão, o apostolo das Molucas. Mas taes exemplos eram excepções, e faltando o primeiro elemento de ordem, quando os motivos sociaes não se tinham definido ainda de um modo sufficiente, o individualismo naturalista do tempo arrastava os[{pg. 298}] homens a todas as desordens, precipitava-os em todos os crimes; e umas e outros cresciam tanto mais, quanto maior era a força intima, o arrojo, a temeridade dos guerreiros. Sobre isto, a influencia dissolvente do clima, do luxo, da sensualidade oriental, veiu lançar a sua semente de corrupção; e o individuo, desarmado, sem crenças nem leis, vivendo ao bel-prazer dos seus instinctos e paixões, caíu n'um poço de ignominias, perdendo inteiramente a noção do proprio brio, da força, e tornando-se, de um pirata, em um chatim.

A estas causas geraes é necessario addicionar as causas particulares, provenientes da incapacidade fortuita dos governos em Lisboa; e porventura, se a India se tivesse descoberto meio seculo mais cedo, o genio politico de D. João II teria desde o começo evitado graves transtornos. D. Manoel e os seus conselheiros tinham para a India um plano só: exploral-a, e arrastar a Lisboa, por quaesquer meios, as riquezas do Oriente. Systema e programma de governo foram cousas desconhecidas; e assim vemos que a occupação muda de caracter com os successivos governadores, e ao sabor das idéas ou das inclinações de cada um d'elles. A India soffre de todos os inconvenientes dos governos electivos e temporarios, sem gozar das vantagens dos governos hereditarios; e é n'isso que se fundará sempre a accusação de incapacidade que a historia formula contra o nosso dominio.

Porém essa incapacidade trazia raizes de mais fundo. Explorar o Oriente commercialmente á hollandeza, era cousa para que o nosso genio nos não chamava. Nos estadistas não houve a perspicacia bastante para medirem as differenças que distinguiam Portugal de Veneza, e as condições do commercio anterior do Oriente das condições em que[{pg. 299}] elle ia achar-se, desde que nós chegámos por mar, armados, á India. A geographia dera aos arabes o dominio indisputado dos mares das Indias; e era ella tambem que fazia dos venezianos os alliados do Turco, e de Veneza o emporio do commercio oriental. Para nos substituirmos na India aos arabes, na Europa a Veneza, tinhamos contra nós, não só a geographia, mas ainda e principalmente outra circumstancia. Indo despojar os arabes da sua preza, deviamos commerciar de armas na mão, manter poderosas esquadras n'esses mares longinquos outr'ora avassallados pacificamente por visinhos.

Estas causas naturaes, alliadas ás causas egualmente naturaes da falta de tirocinio commercial, produziram um genero de exploração, até certo ponto novo na historia; porque não é propriamente uma razzia, como as conquistas dos antigos persas ou assyrios, pois pretende ser um commercio; mas, como o commercio só póde fazer-se á sombra da fortaleza ou á vista da esquadra, as transacções andam sempre misturadas com pilhagens e mortes, com roubos e violencias. Isto dá aos nossos capitães da India uma phisionomia original na sua dualidade. Vê-se de um lado um mercador, como foram outr'ora os carthaginezes ou phenicios; mas vê-se no mesmo homem um soldado, como os de Cyro, ou Assurbanipal.[[112]]