estava cercado pelos santos padres.

Eu, descomposto; no chão o copo, entornado; sobre o oratório, desdobrada, uma charpa de seda, lavrada de bordaduras, exóticas, onde sobressaía uma meia-lua prendendo entre as aspas uma estrela… E acharam a canastra guampa e no porongo o mel… e até no ar farejaram cheiro mulherengo… Nem tanto era preciso para ser logo jungido em manilhas de ferro.

Afrontei o arrocho da tortura, entre ossos e carnes amachucadas e unhas e cabelos repuxados. Dentro das paredes do segredo não havia gritos nem palavras grossas; os padres remordiam a minha alma, prometendo o inferno eterno e exprimiam o meu arquejo decifrando uma confissão…; mas a minha boca não falou…, não falou por senha firme da vontade, que não me palpitava confessar quem era ela e que era linda…

E raivado entre dois amargos desesperos não atinava sair deles: se das riquezas, que eu queria só p’ra mim, se do seu amor, que eu não queria que fosse senão meu, inteiro e todo!

Mas por senha da vontade a boca não falou.

Fui sentenciado a morrer pela morte do garrote, que é infame; condenado fui por ter dado passo errado com bicho imundo, que era bicho e mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira.

No adro e no largo da igreja o povo ajoelhado batia nos peitos, clamando a morte do meu corpo e a misericórdia para a minha alma.

O sino começou dobrando a finados. trouxeram-me em braços, entre alabardas e lanças, e um cortejo moveu-se ,compassando a gente d’armas, os santos padres, o carrasco e o povaréu.

Dobrando a finados… dobrando a finados…

Era por mim.