O fogo dos borralhos foi-se alteando em labaredas e saindo pelas quinchas dos ranchos, sem queimá-los..: as crianças de peito soltaram palavras feitas, como gente grande…; e bandadas de urubus apareceram e começaram a contradançar tão baixo, que se lhes ouvia o esfregar das penas contra o vento…, a contradançar, afiados para uma carniça que ainda não havia porém que havia de haver…
Mas os santos padres alinharam-se na sombra do Santíssimo e borrifaram de água benta o povo amedrontado; e seguiram como num propósito, encomendando a minha alma; o alcaide levantou o pendão real e o carrasco varejou-me sobre o garrote, infâmia de minha morte, por ter todo amores com mulher moura, falsa, sedutora e feiticeira…
Rolou então, sobre o vento e nele foi a lágrima do adeus, que a saudade distilara.
Deu logo a lagoa um ronco bruto, nunca ouvido, tão dilatado e monstruoso…: e rasgou—se cerce em um sangão medonho, entre largo e fundo… e lá no abismo, na caixa por onde ia já correndo, em borbotão, a água lamenta sujando as barrancas novas, lá eu vi e todos e todos viram a teiniaguá de cabeça de pedra transparente, fogachando luminosa como nunca, a teiniaguá correr estrombando os barrocais, até rasgar, romper, arruir a boca do sangão na alta barranca do Uruguai, onde a correnteza em marcha despencou-se, espadanando em espumarada escura, como caudal de chuvas tormentosas!…
A gente levantou p’r’o céu um vozear de lastimas e choros e gemidos.
— Que a Missão de S. Tomé ia perecer… e dasabar a igreja… a terra expulsar os mortos do cemitério… que as crianças inocentes iam perder a graça do batismo… e as mães secar o leite… e as roças o plantio, os homens a coragem…
Depois de um grande silêncio balançou no ar, como esperando…
Mas um milagre se fez: o Santíssimo de se próprio, perpassou a altura das cousas, e lá em cima, cortou no ar turvado a Cruz Bendita!… o padre superior tremeu como em terçã e tartamudo e trôpego marchou para o povoado; os acólitos seguiram, e o alcaide, os soldados, o carrasco e a indiada toda desandou, como em procissão, emparvados, num assombro, e sem ter mais do que tremer, porque ventos, fogo, urubus e estrondos se humilharam, fenecendo, dominados!…
Fiquei sozinho, abandonado, e no mesmo lugar e mesmos ferros posto.
Fiquei sozinho, ouvindo com os ouvidos da minha cabeça as ladainhas que iam minguando, em retirada… mas também ouvindo com os ouvidos do pensamento o chamado carinhoso da teiniaguá; os olhos do meu rosto viam a consolação da Maria Puríssima que se alonjava… mas os olhos do pensamento viam a tentação do riso mimoso da teiniaguá; o nariz do meu rosto tomava o faro do incenso que fugia, ardendo e perfumando as santidades… mas o faro do pensamento sorvia a essência das flores do mel fino de que a teiniaguá tanto gostava; a língua da minha boca estava seca, de agonia, dura, de terror, amarga, de doença… mas a língua do pensamento saboreava os beijos da teiniaguá, doces e macios, frescos e sumarentos como polpa de guabiju colhido ao nascer do sol; o tato das minhas mãos tocava manilhas de ferro, que me prendiam por braços e pernas… mas o tato do pensamento roçava sôfrego pelo corpo da encantada, torneado e rijo, que se encolhia em ânsias, arrepiado como um lombo de jaguar no cio, que se estendia planchado como um corpo de cascavel em fúria…