Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo, mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro… e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno…
Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e a casca das frutas.
Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto.
E três dias houve cerração forte, e três noites o estancieiro teve o mesmo sonho.
***
A peonada bateu o campo, porém ninguém achou a tropilha e nem rastro.
Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo escravo.
Qual não foi o seu grande espanto, quando chagado perto, viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si as formigas que o cobriam ainda!… O Negrinho, de pé, e ali ao lado o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta cordilhos… e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não a tem, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, posada na terra, mas mostrando que estava no céu… Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.
E o negrinho, sarado e risonho, pulando de em pelo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.
E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio. E não chorou, e nem se riu.