O soldado olhou e viu um enorme urso que avançava para elle urrando.
—Ah! elle é isso?! Espera lá que já te vaes calar de vez!—e o soldado assim falando apontou e fez fogo tão certeiro que a bala entrou no focinho do pesado animal que caiu redondo, sem um gemido.
—Está provado que não te falta coragem! Falta ainda outra condição para o contracto.{56}
—Desde o momento em que não seja cousa alguma contraria á minha saude, estou disposto a tudo o que quizeres.
—A condição é esta: durante sete annos não te lavarás, nem farás a barba, nem te pentearás, nem cortarás as unhas e, por ultimo, nem resarás. Se te agrada a proposta, dou-te um fato e um manto que não tirarás senão ao cabo d'esses sete annos. Se morreres entretanto, cairás em meu poder; se, pelo contrario, viveres muito tempo, conquistarás a liberdade e serás rico o resto de teus dias.
O soldado reflectiu no perigo que corria, mas, como varias vezes havia affrontado a morte, decidiu-se a arriscar a vida na empreza, e acceitou o alvitre. O diabo despiu o casaco verde, que fez vestir ao soldado, accrescentando:
—Desde que vistas este casaco não te ha de faltar dinheiro; mette{57} a mão na algibeira e verás que te não minto.
Dicto isto tirou a pelle ao urso morto e presenteou com ella o soldado a quem disse:
—Este é que é o teu manto; servir-te-ha de cama, porque não te é permittido deitar-te sob lençoes. Como consequencia d'este nosso contracto todos te chamarão Pelle d'urso.
Ao terminar a indicação, o demo sumiu-se.