Por mais que se queira, não é possivel fugir á fantasia, que é afinal a parte intelectual e superior da vida; o ponto está em que se canalise devidamente a atenção e o gosto infantil e se lhe vá anotando o que de impossivel se conta para os entreter.
Os psicólogos estão muito enganados; não são os contos fantasticos que desenvolvem as imaginações desvairadas: a criança logo que começa a raciocinar sabe muito bem discernir até onde chega o possivel e onde se entra no limite do impossivel. Tem até graça uma observação que tenho feito entre as crianças do meu conhecimento—e não são poucas as que tenho estudado—a criança mais fantasista, mais imaginosa, mais creadora de sonhos de acordado, é a que menos lê, a que menos se interessa pelas criações alheias. As ponderadas, as serenas,{11} as positivas, aceitam esse acepipe como um prazer do espirito e não desvairam com elle.
Veja-se e compare-se a riqueza fabulosa das literaturas infantis das raças frias do norte, em comparação com as das raças latinas.
Veja-se como lá a fantasia se expande livremente e como são familiares a toda a gente os contos e fabulas tradicionaes.
Por cá abusa-se do sentimentalismo como se fosse qualidade que désse mais condições de resistencia ao ser humano.
E... para terminar, que o espaço é pouco, dir-lhe hei que considero bem o incluir a serie graciosa que acaba de enfeixar sob o sugestivo titulo de «Perolas e diamantes,» verdadeiras joias preciosas do escrinio magnifico dos mestres suprêmos que foram, no genero, os irmãos Grimm.
Não esquecerei nunca o deslumbramento,{12} o encanto que senti ao lêr, pela primeira vez, estes contos, e a anciedade com que acompanhei o homem-urso na sua dolorida peregrinação enfeudado ao diabo... desejava falar n'esta pequenina collecção destacando um por um dos seus lindos episodios, mas... tenho que cinjir-me ao pequeno espaço que me é dado.
Termino, pois, dizendo-lhe: em nome das crianças portuguêzas agradeço o cuidado que tem tido em lhes escolher lindos contos para seu prazer, e em nome das mães pedindo-lhe que não desanime na empreza.
A literatura portuguêza é ainda pobre, apezar do que ultimamente se tem feito; precisamos mais e mais...
As crianças tudo merecem, ellas que nos lêem com tanto enthusiasmo e tão sinceramente nos estimam.