Não tanto como na Allemanha, que em mau gosto na materia leva a palma a todos os paizes do mundo, as lojas de Paris, entre productos da mais fina e pura belleza, encerram, em grande quantidade, o que a imaginação póde crear de mais absurdo e incoherente. Combinam-se e ligam-se as fórmas mais oppostas, juntam-se as côres mais desharmonicas; casa-se a simplicidade grega com os monstros japonezes e sobre os tapetes e porcelanas dansam desconchavadamente todas as côres. Nenhuma sabe do seu par.
Já assim não acontece com as rendas e porcelanas da Suecia e da Dinamarca, que me encantaram e surprehenderam (na minha ignorancia desconhecia o que, parece, é sabido de todo o mundo e até famoso). Combinações de duas ou tres côres, desenhos simples, nada variados, repetindo-se com frequencia, e de tão parcos elementos, esses paizes souberam tirar effeitos que a industria franceza não conseguiu gastando e torturando a imaginação.
É bem simples a razão, a meu vêr. Quiz o acaso que em Stockolmo parasse no deposito da mais afamada das suas fabricas de porcelana e faianças, justamente no momento em que me dirigia ao museu nacional; e pude vêr quanto os productos modernos differiam pouco dos modelos historicos. Muito de proposito aponto a ordem da observação para que não se julgue que no meu juizo houve preoccupações de tradicionalista. Não houve realmente; foi a evidencia de facto que me levou a crêr que, inspirando-se na tradição, a industria encontrára alli o mais seguro guia de belleza e bom-gosto.
Não direi exactamente o mesmo do que vi em Copenhague. Ahi, embora as rendas e bordados se não afastem tambem de modelos que têm seculos de existencia, a pintura em louça tomou para base a cópia do natural. E inutil será acrescentar que, explorando esta via, não chegou a resultados menos brilhantes do que os seus visinhos seguindo na tradição.
A nenhum d'estes tutores se quer sujeitar a moderna industria franceza, e, emancipada, entrega-se á phantasia excitada pela concorrencia que lhe pede novidade, invenção. É talvez uma maneira de traduzir o espirito de liberdade n'este terreno, mas a extrema liberdade aqui como em tudo não foi mais feliz do que a obediencia sensata e justa, consciente e reflectida. E, se não, vejam-se os productos preciosos que, em França mesmo, nos apresentam as industrias que se não afastaram da tradição, o ferro forjado, por exemplo. É mais uma resurreição dos antigos modelos do que uma industria nova; pois não sei que se possa inventar coisa alguma de mais bello, e estou certo de que os estrangeiros que vierem a Paris hão de dar-me razão.
Venho a concluir que das tres fontes de inspiração apontadas, a natureza vegetal, a tradição e a phantasia, só as duas primeiras nos levam por caminho seguro. A natureza vegetal não tem desharmonias; filhas do mesmo solo e do mesmo clima, creadas com o mesmo alimento, a mesma humidade e a mesma luz, as plantas têm a harmonia necessaria de productos dos mesmos factores. É isto que nos faz dizer bellas as flôres mais exoticas e extravagantes. Demais o homem recebe a educação natural d'esses mesmos elementos e goza com o que é lhes conforme, soffre com o que os contraría.
A tradição, perpetuando fórmas e combinações, demonstra ipso facto a sua concordancia com a maneira intima de sentir de uma raça. D'outra fórma, desappareceriam como desapparece tudo o que é contrario ao seu caracter permanente, ainda que por qualquer motivo tivessem tido uma existencia mais ou menos duradoura.
Mas a novidade e a phantasia são perigosas, pois diz-nos a razão e a historia que o poder creador não é infinito, encerrado como está entre os limites objectivos, a constancia dos materiaes, e os limites subjectivos, a capacidade e a fórma de sentir de cada raça.
As artes exoticas, que são um dos muitos elementos que a sciencia e as descobertas modernas deram á phantasia, despertarão sempre curiosidade intellectual como revelações de civilisações estranhas, mas, passado este primeiro deslumbramento, não entrarão nos museus, deixando no adorno domestico só o que se conforma com as nossas concepções estheticas?