D'esse conceito, d'essa visão ultima e final, producto de series de impressões successivas, resultam para mim duas idéas—a ausencia de grandeza e a preferencia do adorno sobre a estructura.
Sobre esta creio não haver duvida. Dentelle—foi a palavra que mais vezes ouvi do guarda da Alhambra que me acompanhava; rendas são na verdade todos esses minusculos trabalhos em gesso de que os seus muros estão cobertos. Para lhes dar todo o relevo estenderam-se sobre o ouro e as côres mais vivas, um azul intenso e um vermelho rutilante, e não se pouparam as perspectivas que os projectassem sobre a grandeza do espaço e da luz; e, depois de os ter despendido com uma prodigalidade infatigavel, cobriram-se os intervallos que restavam com azulejos e couros de Cordova, rendas ainda, posto que d'outra materia. Não se levantaram palacios, atapetaram-se alcovas de sultana.
É de crer que me neguem a falta de grandeza nos monumentos arabes, adduzindo como primeira prova de contestação a mesquita de Cordova. Ao que responderei que é d'esse mesmo documento que pretendo tirar a melhor prova do meu pensamento.
Quando lá entrei, lembrou-me um pomar de macieiras frondosas e bem alinhadas, d'esses que os brazileiros da minha terra têm alli pela Villa da Feira. Li depois que Theophilo Gautier a comparára a uma floresta, mas as florestas bracejam á vontade, erguem-se ao sol e desconhecem a linha recta, errando gigantes por onde a luz e a terra mysteriosamente as conduzem. Transcrevo as proporções d'esse edificio e o leitor dirá se n'ellas cabe grandeza.
Supprimamos a capella-mór e vejamos só as proporções da mesquita no seu estado primitivo. Um quadrilatero, cento e sessenta e sete metros de comprimento, cento e dezenove de largura, dez d'altura; dezenove naves n'uma direcção e trinta e seis na outra, arcos mouriscos assentes em columnas de cerca de tres metros. É facil de imaginar o aspecto de tanta galeria tão baixa, tão estreita e tão longa.
A isto chamou-se grandeza, sendo aliás a sua negação. A grandeza está nas proporções d'um só conceito, e o arabe, não podendo alcançal-a, vingou-se na extensão, repetindo n'um vasto campo o mesmo conceito. Incapacidade de espirito ou consequencia de um mau ponto de partida? Foi o espirito arabe que carecia de grandeza ou a grandeza era incompativel com a fórma d'arco que adoptára e que mais amava? E questão que por certo os homens do officio terão resolvido ha muito, e elles saberão dizer-nos se com o arco arabe poderemos ir muito longe; para os meus olhos desprevenidos e ignorantissimos aquelle arco parece concluir sempre o edificio, tornando impossivel uma sobreposição equilibrada apparentemente, já se vê, porque quanto á realidade não ha duvida.
Perdôem-me os expertos se n'isto vai grande barbaridade, mas em tempos de suffragio universal é permittido ouvir-se a voz do vulgo. De resto, questão incidente; prosigamos. Ausencia de grandeza e abuso do adorno não são qualidades de gente guerreira, e por isso comprehendo Carlos V mandando arrasar parte da Alhambra e construindo no seu logar um palacio da mais bella renascença; foi ingenuamente o homem da sua raça. Quem dos jardins do Generalife vir os telhados da Alhambra, baixos como cabanas ao lado do palacio sumptuoso e altivo, comprehenderá porque razão isto venceu aquillo. Estão alli duas architecturas e duas almas.
Lamentamos e com razão que se houvessem destruido tão boas fontes de saber. Penetrar o espirito alheio, abranger na extensão do nosso pensamento a vida de toda a terra e de todo o universo, se possivel, é para nós um tão grande prazer como a contemplação de quanto nos deleita a vista: e n'este sentido são justas as lamentações de todo o monumento perdido. Mas não é menos justa a sympathia pela expansão forte, viril e inconsciente dos instinctos de uma raça, ainda não pervertida pela largueza intellectual que conduz ao scepticismo, pondo o cant no logar da admiração sincera: e então os actos barbaros como o de Carlos V têm seus laivos de grandeza.
E todavia quem falla d'esta fórma da arte arabe ainda hontem poderia ser surprehendido em flagrante delicto de admiração diante da entrada de um casino de Sevilha. Que singeleza! Um vestibulo rectangular, ladrilhado de marmore, as paredes com uma cercadura de um metro de azulejo e depois gobelinos até ao tecto de madeira, apainelado; ao centro tres arcos sobre quatro columnas de marmore branco dando entrada para o pateo, quadrado, com uma ornamentação semelhante á do vestibulo. Não ha n'isto grandes reminiscencias dos mouros? Ha, decerto; toda a differença consiste não em desconhecermos a belleza da sua arte mas em a tornarmos como subordinada a uma concepção mais alta. De fim ultimo e principal, os seus mais bellos elementos transformam-se ás nossas mãos em accidente e complemento.
É tempo de passarmos á formosa Andaluzia, formosa nas suas mulheres, no pittoresco dos costumes, retardatarios da desnacionalisação, porque a formosura dos seus campos soffre grandes reservas.