Dois elementos principaes formam uma cidade: o elemento governativo, o funccionario, o militar e a côrte, e o elemento mercantil, o commercio e a industria. Theatros, museus, bibliothecas, palacios, escólas, jardins, passeios e grandes ruas são a consequencia natural da existencia d'aquelles dois elementos; ou representam satisfações de prazer para uma população ociosa, ou são condições de trabalho e instrumentos de estudo para a população laboriosa: e, em qualquer caso, a sua vastidão e grandeza derivam da necessaria proporção que existe entre a intensidade da vida social d'um povo e os seus orgãos. Acontece, porém, que nos governos monarchicos, mais ou menos absolutos, ao lado do elemento mercantil, cuja norma é a concorrencia e o lucro, está um outro, igualmente poderoso e influente, que tem por norma a ordem, a sujeição e a obediencia e sempre uma apparencia séria e grave, embora muitas vezes occulte sentimentos e caracteres intimos que o não são; e este ultimo elemento, temperando o que o primeiro tem de excessivamente grosseiro e palrador, dava á cidade uns traços ligeiramente sombrios que, sem a tornarem triste, corrigiam o que porventura houvesse de demasiado estrepitoso e garrido. Ora a França, com a dissolução do segundo imperio, escreveu por toda a parte Liberdade, Igualdade, Fraternidade, varreu os ultimos restos de dependencia hierarchica, nivelou todas as profissões, o sabio, o politico e o mercador; e as instituições sociaes e politicas, juntando-se ao caracter inquieto e vivo d'aquelle povo, abriram de par em par as portas de uma grande feira franca—Paris.

Desde a madrugada até alta noite, compra-se e vende-se. Ao romper da manhã, os pesados percherons arrastam ao mercado toda a riqueza que os campos enviam; depois, vem o politico em busca do poder, comprando por todo o preço o voto popular, lisonjeando-lhe no parlamento e na imprensa os caprichos e instinctos, cedendo sem pudor á traficancia e á corrupção; depois, vem o sportman e o titular, os cavallos e os vestidos caros, as carruagens, as rendas e os brilhantes, vem o livro escandaloso e o livro desvairado, vem a feira das vaidades, como lhe chamaria o romancista inglez; depois, os mercados do amor, a miseria que ri, a miseria embriagada da propria miseria; e sempre o marulhar d'esta onda constantemente inquieta que geme e apregôa, ameaça e implora.

Á concorrencia desenfreada não ha superioridade de especie alguma que resista; os mais bellos caracteres de raça, a lucidez, a alegria, os instinctos artisticos, a elegancia, a percepção viva e prompta da fórma e da côr, aniquilam-se, pervertem-se. Vencer é o fim ultimo e unico, e para lá chegar, a primeira coisa a pôr de parte é a qualidade fundamental de todo o espirito são,—a sinceridade. Importa pouco ao estadista o seu proprio pensamento sobre as coisas politicas, não precisa tel-o, nem muitas vezes o tem; o essencial é saber o que pensam aquelles por cujos hombros tem de trepar. Importa pouco ao artista e ao homem de letras ouvir a sua consciencia sobre o que ella lhe diz da belleza na obra d'arte; o essencial é saber o que pasma e arrebata aquelles que hão de pagar-lhe em incenso e ouro.

A vida consome-se febril e ardentemente, quasi heroicamente, n'um esforço ingente—chamar gente á sua barraca.

Se houvesse de consultar os meus sentimentos sobre a vida de Paris cobriria estas folhas de lamentos; mas o critico escuta as vozes estranhas sem dar ouvidos á sua voz intima, observa, descreve e classifica os phenomenos e as ligações das coisas, esquecendo as suas aspirações e desejos. Se porém me é permittida uma pequena desobediencia a lei, confessarei quanto me repugna esta inanidade de vida moral, e o desprendimento da natureza e de todas as forças intimas e divinas que regem o homem e o mundo. Paris afigura-se-me uma fornalha de gelo, rubra como a chamma e fria como a neve; consome e não dá calor, como se um dia no pólo todas as neves se incendiassem n'uma labareda ingente e em torno um frio agudo a prostrar na morte a humanidade.

Sempre a tyrannia do horario dos caminhos de ferro! Tinha ainda duas palavras a dizer de Paris, de Berlim, e da viagem até aqui, mas só em Moscow poderei fazel-o. Já me resignei a nunca trazer estas notas em dia.


Moscow, 13 de Setembro.

Ao vêr os arredores de Paris, coalhados de jardins e de pequeninas casas tratadas com esmero, dir-se-hia que aquella gente conserva sempre vivo um grande amor pelo silencio e pela paz da natureza. Do pequeno burguez ao grande banqueiro, todos ambicionam a arvore e a flôr, ou sejam em dois palmos de terra, comprados a peso de ouro, ou seja em vastos parques, traçados com arte e sabedoria; e ao domingo, o operario, o caixeiro, a legião innumera dos humildes vai a Saint Cloud, a Saint Germain, a Enghien, ou a qualquer outro arrabalde, onde tenha um retalho de relva e um farrapo de sombra para deitar-se um momento.