Secarão os Eucalyptos as fontes, segundo muitos crêem? Desconfio. Ganharam essa fama e provavelmente continuarão a soffrel-a, se os que téem minas e canalisações debaixo das raizes dos Eucalyptos não as limparem assiduamente. As raizes dos Eucalyptos, no seu rapido desenvolvimento, depressa obstruirão completamente essas minas e canalisações, transviando-lhes e sumindo-lhes as aguas. Se, porém, houver os necessarios cuidados de limpeza, creio que tal não acontecerá, pois sobre este quesito posso dar testemunho de que, tendo ha quarenta annos um macisso colossal de Eucalyptos sobre uma nascente, nunca esta deu signal de enfraquecimento. É hoje o que sempre foi.

Dão abrigo aos passaros—evidentemente, como todo o arvoredo. Se isso houvesse de ser motivo de depreciação do Eucalypto, importaria a condemnação de todas as florestas. O que faltou dizer, quando se aduziu semelhante prejuizo do Eucalypto, é se essas aves que elles abrigam não valem bem o que pastam nos campos e se sem ellas não corre grave risco a nossa saude e o nosso sustento, pela invasão de uma fauna bem mais destruidora do que as aves, e da qual as aves são inimigos infatigaveis e mortaes. Isto reduzindo a questão a termos meramente economicos, porque, se a apreciassemos por considerações moraes e estheticas, não podia subsistir um instante. A belleza, o conforto e a protecção do arvoredo de qualquer especie serão eternamente um regalo dos sentidos incomparavel e um mysterioso mas efficaz elixir de paz de espirito.

Mas os Eucalyptos dão cabo dos mattos, ou melhor, do tojo. É este um dos artigos mais repetidos da excommunhão dos Eucalyptos.

Sobre isso, não haja duvida. É muito certo. O Eucalypto é absorvente, onde se planta, logo se apossa absolutamente da terra, como inevitavelmente, sempre terá de acontecer com toda a especie vegetal de natureza opulenta. O Eucalypto reclama tudo para si; necessidades formidaveis de sustentação assim o determinam. Que eu saiba, apenas as acacias, as hakeas e os sobreiros lhe supportam a vizinhança e apezar d'ella se mantéem e medram. O que resta saber e aqui constitue todo o problema, é se vale a pena conservar o matto onde podemos crear Eucalyptos. Ora, um hectare com 1:000 Eucalyptos dará, ao fim de 25 annos, 5 contos, calculando cada Eucalypto a 5 escudos, preço modesto. Serão 200 escudos por anno. E quantas carradas de matto seriam necessarias para que esse hectare produzisse rendimento semelhante? Haverá mesmo algum pedaço de matto em Portugal dando rendimento que com aquella cifra se compare?

O lavrador corre a affirmar que não póde dispensar os mattos para adubo dos campos. Mas suspeito de que haverá agronomos que discordem, respondendo que semelhante processo de adubação é tão antiquado como pobre. As adubações em verde, com a sua riqueza de azote, barateza de applicação e mais vantagens scientificamente demonstradas, e os adubos mineraes, de uma efficacia admiravel e de uma commodidade de transporte unica, vão deixando para um derradeiro e pesado recurso as adubações pelo tojo, de proveito minguado e lento e preparação dispendiosa, reclamando uma somma de trabalho que não está em proporção da riqueza fertillisante do adubo, seriamente estorvada por difficuldades de decomposição desanimadoras. Não, não será o tojo que economicamente possa medir-se com o Eucalypto.

Dar-se-ha, porém, o abstruso caso da insalubridade das mattas de Eucalypto, por propicias á propagação dos mosquitos? Abrirão ellas uma excepção na velha e incontestada crença pupular de que as arvores são beneficas para a saude de quem entre ellas habita?

Sobre esse ponto atrevo-me a ter opinião propria, com toda a arrogancia do incompetente que não é medico nem homem de sciencia.

O Barão de Mueller falla do «grande poder de exhalação» que os Eucalyptos possuem, e na minha intimidade com essas arvores casualmente vi demonstrada essa assombrosa capacidade de exhalação. Puz flôres em diversos vasos de vidro, d'estes vulgarmente chamados «solitarios», e entre elles ficou um contendo unicamente ramos e flôres do Eucalyptus gracilis. Passadas vinte e quatro horas, vi quasi sem agua o vaso do Eucalypto, emquanto os outros a conservavam aproximadamente na altura em que na vespera a deixára, o que aliás era de esperar passando-se isto em dezembro, mez em que a evaporação é frouxissima. Enchi de novo o vaso no qual a agua baixára e, passadas as segundas vinte e quatro horas, de novo a agua desapparecêra, como da primeira vez. Seguidamente, repeti a experiencia e o resultado foi invariavelmente o mesmo. Percebi então o que era o extraordinario «poder de exhalação» do Eucalypto.

Ora, sendo assim com os ramos cortados, cuja vitalidade necessariamente terá abrandado pelo córte, pergunto que especie de atmosphera será a que cobre uma floresta de Eucalyptos e a sua visinhança immediata, e não posso deixar de suspeitar que essa atmosphera será permanentemente moderada por uma evaporação que tanto ha-de quebrar a violencia do calor no estio, como o rigor do frio no inverno. Será um manto precioso para a actividade do corpo e uma fonte continua de suavidade para os sentidos. Se isso não é salutar, não sei o que o seja nem o que deva buscar para ter saude.

Quanto aos effeitos therapeuticos das essencias derivadas do Eucalypto, especialmente das folhas e dos seus oleos, respondem os formularios pharmaceuticos e o uso medico actual. Mas convem lembrar que esse será um rendimento secundario, apenas subsidiario, nas plantações de Eucalyptos em larga escala.