Exceptuando as argilas e os calcareos, todo o terreno convém ao Eucalypto, comtanto que não seja fundado em rocha a pequena profundidade e dê ás raizes possibilidade de penetração. Tenho lido que o Eucalyptus gomphocephala e o cornuta supportam os barros e os calcareos; não vi, porém, ainda demonstração prática d'essa faculdade auctorisando qualquer experiencia de certa latitude. O livrinho de Souza Pimentel diz que o Eucalypto viverá onde o sobreiro viver, e inclino-me a crêr que essa indicação será, em geral, segura. O certo é que o Eucalypto é facil de contentar quanto a terreno e capaz de vestir e enriquecer os mais ingratos, desde os seixos frios das charnecas até as areias mais safaras.

Outro tanto não se poderá dizer das exigencias do Eucalypto em materia de clima. Na Australia supporta temperaturas de 70° centigrados ao sol e algumas especies ha, como o Eucalyptus largiflorens e o polyanthema, que affrontam impunemente as nossas estiagens mais duras. Mas desenganemo-nos, tanto mais que os enganos poderão sahir caros ao lavrador, como aconteceu na Argelia; o Eucalypto é arvore de climas moderados, alegra-se na frescura e soffre deveras com o frio. Em temperaturas inferiores a 4° centigradus abaixo de zero, dá logo signais de doença, e nas especies mais melindrosas gela até ao colo da raiz, mesmo quando já está com alguns metros de altura. Isto me aconteceu, por exemplo, com o Eucalyptus maculata; perdi n'um só inverno quantos tinha, já muito crescidos e lindos.

Sobretudo, acabemos por uma vez com a illusão de que os Eucalyptos podem formar abrigos contra o vento do mar. Tenhamos bem presente a preciosa recommendação de Souza Pimentel, que, sendo de 1876, ainda hoje carece de ser repetida, tão lenta é a diffusão dos conhecimentos agricolas:—«Apezar do clima maritimo ser muito favoravel para os Eucalyptos, não devemos fazer plantações d'esta arvore em sitios muito proximos do mar e que estejam directamente expostos ás emanações salgadiças e aos ventos muito violentos do littoral; ou então procederemos de modo que as plantas fiquem abrigadas por alguma elevação natural, ou outra qualquer defeza, o que é facil encontrar.» Quererá o Eucalypto sentir o alento das aguas do mar, mas onde lhe chegue isento de toda a aspereza que é caracteristica da nossa costa maritima.

Sem embargo, a grande zona do Eucalypto, em Portugal, aquella que admitte largo numero de especies e lhes assegura condições de desenvolvimento perfeito, será essa que as brumas maritimas de perto ou de longe e em toda a estação bafejam. O fallecido e benemerito Bernardino Barros Gomes, nas Cartas elementares de Portugal que, a meu vêr, continuam sendo um documento fundamental no estudo da physiographia do nosso paiz, acha a linha culminante que domina a vida physica do paiz na extensissima cordilheira que com depressões de variada profundeza vai subindo lentamente do Cabo da Roca á Estrella, pelas serras de Cintra, Aire e Louzã, e da Estrella vai a Larouco, na fronteira da Galliza, pelas serras de Montemuro, Marão e Gerez. «Linha seguida de condensação mais extensa e elevada não ha no paiz: 1:580, 1:206, 1:422, 1:389 1:993 e 1:202 são as alturas dos seus pontos culminantes, marcados na carta geographica com os nomes de Larouco, Gerez, Marão, Montemuro, Estrella e Louzã.» São essas as muralhas que os ventos do mar téem a vencer na passagem para o interior da Peninsula, e por sua poderosa influencia de condensação essas serras dividem o paiz ao norte do Tejo em duas grandes zonas—littoral e interna.

Ora, é esta zona littoral ao norte do Tejo que eu julgo ser a grande zona da cultura do Eucalypto em Portugal—na faixa média, isto é, a distancia sufficiente do mar, para não soffrer com o rigor da ventania, e limitando-se na subida ás alturas, para não morrer victima dos gelos, devendo todavia notar que a 600 metros de altitude tenho encontrado lindos exemplares do Eucalyptus globulus e que, se o Eucalyptus globulus prospera n'essas alturas, é de suppôr que o Eucalyptus amygdalina, o coriacea e o Gunnii consentirão em crescer nos nossos montes a 700 ou mesmo 800 metros de altitude, se ahi lhes soubermos escolher situação. Fóra d'essa extensissima região litoral do norte do paiz, quer no sul, quer no interior do norte, haverá, sem duvida, muitissimos logares onde o Eucalypto medre rapida e magestosamente, sobretudo nos valles e na proximidade de ribeiros que alguma frescura lhe facultem. Mas, pois que não é licito contar aqui como regra a abundante e permanente humidade da zona norte que tracei, a cultura do Eucalypto passa a ser como accidental, o que aliás não impede de apresentar muitas e valiosas manchas de explendor, igualando as melhores da zona eleita.

III
Póda dos Eucalyptos

Algum tempo, e muito longo, tive como regra invariavel que os Eucalyptos não careciam de póda. Mais do que isso, a póda era-lhes nociva. Isto me diziam os melhores livros que se occupavam da sua cultura; isto me era confirmado pelo que observava nas minhas plantações e nas dos visinhos; e isto tambem me era aconselhado pelo exame das proprias arvores que, despojando-se expontaneamente dos ramos caducos, d'aquelles cuja acção havia cessado, estavam em seu trabalho organico a mostrar-nos a indiscrição de qualquer intervenção, que por certo nunca poderia exceder, ou sequer emparelhar, a sua natural previdencia. Ellas, as arvores, é que sabiam, muito melhor do que nós, quando é que lhes convinha desfazer-se das roupas velhas.

As minhas observações então limitavam-se, porém, a uma só especie de Eucalyptos, ao globulus. E para esse e para todos os afins no modo de vegetar, isto é, para aquelles que crescem em haste direita e se despojam expontaneamente dos ramos velhos, a regra prevalece:—não se lhes deve tocar. A não ser, claro está, para cortar algum ramo muito baixo que por acaso persista e se desenvolva, encurtando mais tarde o comprimento das madeiras ou empecendo, no presente, o caminho ou passagem. E esta ultima hypothese não é rara nos Eucalyptos plantados isoladamente, em condições de bracejar com largueza, a seu capricho.

Nas especies que não dão expontaneamente haste direita, e n'este numero se tornam notaveis e predominantes o polyanthema, o melliodora, o Behriana e o bicolor ou largiflorens, n'estas, se não lhes acudimos a tempo encaminhando-as pelo córte dos ramos rasteiros, teremos todas as probabilidades de as vêr convertidas em grandes arbustos, pendidos, tortos e curvados por mil modos, sem dois palmos de madeira direita aproveitavel. Ahi, a póda é essencial e tem sua arte, reclamando a attenção de quem a faz, para que não seja tardia, nem excessiva, para que não deixe engrossar demasiado os ramos e tambem para que por excesso de póda não adelgace muito a haste e lhe prejudique a robustez.

Mas ha mais: em certos casos, e mesmo para Eucalyptos que naturalmente crescem em haste direita, poderá haver vantagem no córte das pontas terminaes a quatro ou cinco metros do chão. Em Roma, encontrei frequentemente Eucalyptus rostrata, assim degolados, com troncos magnificos na base e bem vestidos de frondosos braços no cimo. E aqui, nas minhas plantações, aconteceu que, havendo sido cortadas (por malvadez) as pontas de oito Eucalyptus macrorrynchas, crearam outras que soldaram perfeitamente no tronco, e este engrossou bem, e até mais do que o dos Eucalyptos da mesma especie que estavam proximos e foram poupados pelo vandalismo.