Sobre o córte dos Eucalyptos, a Eucalyptographia do Barão de Mueller reproduz as recommendações de George Simpson, o qual, na opinião de Mueller, «falla em resultado d'uma longa experiencia e com auctoridade»; e porque essas recommendações se me afiguram de uma importancia capital, aqui as reproduzo.
Dizem assim:
«Por causa da sua densidade, a madeira do Eucalypto não póde seccar nos cêpos; troncos de 12 pés de comprimento por 12 polegadas de espessura, deixados durante 7 annos no logar onde foram cortados, empenaram, quando depois foram serrados em pranchões, quasi tanto como se houvessem sido cortados recentemente. D'aqui vem que a exposição dos cêpos a influencias proprias a effectuar a séca alcança apenas a parte externa e com prejuizo, pelo menos, d'essas camadas que attinge. Por isso, G. Simpson insiste, com razão, na conveniencia de serrar os troncos nas dimensões que se quizerem, logo que são derrubados. A madeira serrada deve depois ser empilhada, e, para obstar a que se fenda e torça, convem cobril-a levemente com serradura, sendo esta substancia a mais facil de obter e applicar para evitar uma evaporação demasiado rapida da humidade da madeira. A serradura é um mau conductor do calor. A madeira do Eucalypto (pelo menos do Jarrah, Eucalyptus marginata) requer para seccar por este processo cerca de 3 mezes, se é feita em pranchões de 3X2 polegadas; para pranchões de 12X12 polegadas demandará, aproximadamente, um anno. Quanto á occasião do córte, o snr. Simpson está de accôrdo com todos os observadores sensatos, insistindo em que as arvores devem ser cortadas quando o movimento da seiva é menos activo; por conseguinte, ahi pelo fim do estio, antes que as chuvas pesadas dos mezes mais frios venham despertar uma circulação mais vigorosa da seiva. Mais nota ainda G. Simpson que os ramos de Eucalyptos, quando cortados na estação humida, fendem muito mais do que quando o córte se faz nas épocas mais sêccas do anno. Deve haver tambem muito cuidado em livrar as arvores de grande abalo ao cair. De outra fórma, a madeira apresentará defeitos, embora algumas vezes estes só se revelem muito tempo depois de a empregarmos. Poder-se-ha evitar muito esmagamento inclinando a quéda para onde haja ramada e afastando-a dos terrenos pedregosos e das rochas.»
VI
Eucalyptos hybridos
Desde que, em 1902 comecei a fazer sementeiras de Eucalyptos com maior assiduidade e experimentando largo numero de especies, achei entre exemplares que inteiramente se conformavam com a descripção que d'elles tinha nos livros proprios do seu estudo, alguns que eram uma aberração manifesta do typo especifico. A principio julguei que essas divergencias, então raras, proviessem de menos cuidado no apartamento das sementes; seriam resultado de qualquer mistura casual. Mas, havendo plantado algumas dezenas de especies n'um espaço relativamente estreito, verifiquei, á medida que comecei a colher sementes das arvores por mim plantadas, a progressiva frequencia dos exemplares extravagentes, e tive por indubitavel a hybridação. Até que, ultimamente, me veio ás mãos a obra do illustre botanico e professor Maiden, A Critical Revision of the genus Eucalyptus; e ahi vi o facto da hybridação dos Eucalyptos confirmado por uma das mais subidas auctoridades contemporaneas em materia de flora australiana.
Maiden considera «absolutamente provada» a hybridação dos Eucalyptos, e acha que d'esse facto abundam provas. Segundo as suas observações, o Eucalyptus Boormanii é um hybrido do siderophloia e do hemiphloia; o affinis vem do cruzamento do sideroxylon e do hemiphloia e o consideneana será talvez um hybrido do piperita e do Sieberiana.
Nas minhas sementeiras, os Eucalyptos que se mostraram mais facilmente susceptiveis de cruzamento foram o Gunnii e o leucoxylon. De quinze exemplares provenientes de uma sementeira d'este ultimo, não havia talvez dois perfeitamente iguaes. O robusta, o botryoides e mais acentuadamente o Stuartiana tambem não eram dos mais esquivos em apresentar exemplares divergindo das mães, não sei se por hybridação, se por tendencia ingenita a variar, a qual é igualmente fóra de duvida para grande parte das especies d'este genero. Em compensação, ha outras que não variam. Do globulus nunca encontrei um só hybrido. No amygdalina são rarissimos os exemplares divergentes; n'uma sementeira que produziu mais de quatrocentos pés, apenas encontrei um que não se conformava inteiramente com o typo commum.
Dado este facto da hybridação e começando nós a conhecer as especies em que se manifesta, convém saber se d'ella poderemos tirar proveito economico e não teremos antes de a considerar no ról das meras curiosidades da cultura florestal.
N'este ponto é que a obra de Maiden nos dá, se não me engano, uma indicação de valor, onde diz que as especies e variedades de Eucalyptos agrupadas na designação vulgar sob o nome de box-trees (arvores de buxo) e entre as quaes se encontram o melliodora, o polyanthema, o largiflorens e outros, mostram «uma particular tendencia para cruzar com aquellas outras especies chamadas iron-barks (casca de ferro) das quaes o crebra é muito nosso conhecido e a todos os respeitos justamente famoso.
Esta affirmação do sabio director do Jardim Botanico de Sydney porventura envolverá para nós uma indicação preciosa. O polyanthema, um box-tree, é muito provavelmente o Eucalypto que entre nós melhor supporta o calor do estio, emquanto resiste perfeitamente aos nossos invernos; mas é lento, muito lento no desenvolvimento. Entretanto, o crebra, um iron-bark, mais sensivel ás vicissitudes climatericas, prosperando, todavia, sob temperaturas elevadas e supportando sem maior mal frios rigorosos, tem um desenvolvimento mediano, em termos manifestos de aproveitamento economico. Em ambos a madeira é excellente. Seria possivel pelo cruzamento do polyanthema e do crebra obter hybridos que tendo as notabilissimas qualidades de resistencia do polyanthema lhes juntassem uma maior celeridade de desenvolvimento? E o Gunnii tão prompto em cruzar e tão proprio para povoar as encostas frias, não poderia ser melhorado pela insinuação de elementos novos, trazendo á sua madeira qualidades superiores a essas, devéras aproveitaveis, que já possue, e fazendo-a tão boa para construcções como magnifica é para lenha?