De resto, a tradição da vida particular de José Estevão confirma as confissões da vida publica sobre o modo por que concebia a sociedade democratica. A igualdade que reclamava nas leis do estado, a illegitimidade de que accusava a propriedade inculta ou sequestrada em morgadio, o respeito do trabalho como principio unico da posse, a aversão a impostos indirectos que sacrificam os miseraveis e poupam os ricos, todo esse novo regimen juridico que no pensamento se lhe ia esboçando, ajustavam-se no trato ordinario a uma inclinação permanente a conviver e familiarisar-se com operarios e gente humilde. Em Aveiro essa tendencia ficou memoravel, e quasi constituiu uma escola de nivellamento social de todas as classes e condições, que ainda hoje dá um aspecto singular á vida quotidiana da cidade. Aquelle homem que era temido e querido entre os maiores da sua epoca, burguez de nascença, filho d'um medico e neto dum official publico, bem cedo fidalgo consagrado pelo talento, pelo caracter e por uma distincção irresistivel, acolhido na aristocracia da capital com affecto e summo respeito, como se lhe pertencesse pelo sangue, ou ainda mais, esse homem a que por tantos motivos poderia perdoar-se a vaidade e o orgulho, victorioso de tantos combates, apetecia o convivio dos mais pequeninos e n'elle se deliciava, dão direi sómente accessivel á gente do povo e á de toda a condição, mas procurando-a e amando-a, atraido por um poder de sympathia intima e plena. Estou mesmo bem certo de que a razão principal da sua popularidade em Aveiro foi mais este reconhecimento instinctivo dos seus sentimentos intimos do que a admiração do seu genio, cuja grandeza escapava ao vulgo. Foi amado, porque amava.
[[10]] «A agiotagem tem invadido todas as repartições publicas, e procurando elaquear todos os poderes do estado, já se atreveu a entrar no palacio, e a atacar as prerogativas da corôa, pedindo a conservação de ministros!... Os publicistas dividem os poderes a seu bello prazer, e marcam a sua independencia, como se tivessem sobre elles senhorio absoluto; mas quantas vezes as nomenclaturas e as extremas, que se acham nos livros, se baralham e confundem no trato mundano. Os poderes, diz a constituição, "são o judicial, o legislativo, o executivo, e todos elles são independentes em suas funcções". A despeito porém d'esta determinação, os acontecimentos, ora roubam a efficacia a taes poderes, ora os reunem em uma só mão, ora os fraccionam e multiplicam, porque o poder é um facto, que subjuga e conquista a vontade da lei e a doutrina dos sabios. Ha entre nós um poder, em que a constituição não falla e para cuja independencia não providenceia; entretanto elle é o maior que conhecemos; refiro-me ao poder agiota. Tem-se elle ligado ao poder legislativo, e esta terrivel accumulação vae-nos sendo fatal. É preciso separal-os, quanto antes.»
José Estevão, Discurso sobre o orçamento do estado, em sessão de 8 de junho de 1839.
VII
Monarchico e catholico, partidario e defensor de formas de constituição politica, religiosa e social que representam grave desigualdade e graus infinitos de hierarchia; por outro lado e ao mesmo tempo, empenhando-se, sempre apaixonado, em assegurar nas leis do estado os direitos populares, sobretudo aquelles que, conferindo ás classes trabalhadoras a independencia economica, mais solidamente lhe outorgam a unica base efficaz de soberania e igualdade--José Estevão parecerá, a quem quizér esboçar o systema das suas ideias, contradictorio ou fraco, sem coragem de levar ás ultimas consequencias os principios que professava, ou negando-os repetidas vezes pela acceitação de principios oppostos, em relações essenciaes da communidade politica. Contradicções e fraquezas d'esta natureza, se as tivesse, justifical-as-ia plenamente o seu tempo. Justificava-as uma epoca em que não era facil determinar o quinhão do passado e o das aspirações do futuro em toda a extensão da mentalidade humana. O passado não fôra arrazado totalmente, e, pelo contrario, ao fim de diversas tentativas e experiencias, mostrava-se indestructivel e vantajoso em muitos dos seus elementos, o que perturbava as energias reformadoras; e o futuro não lograva apresentar-se tão isento de sombra e duvida que fosse possivel conceder-lhe sem hesitação ou exame, de coração leve, quanto elle pedia.
Mas, para comprehendermos a attitude politica de José Estevão nos diversos aspectos que apresentou, não carecemos de recorrer á invocação do espirito de incerteza e fluctuação que a vitalidade e respeito das tradições, em conflicto com os impulsos revolucionarios, communicava á maioria das nações da Europa. Reflectindo, acharemos que a concepção politica de José Estevão era, na verdade, coordenada, sem atraiçoar a boa logica ou prejudicar o caracter, e muito menos sem os devaneios romanticos de radicalismos que a destituissem de efficacia e capacidade pratica. A historia encarregou-se de mostrar até que ponto a mais alta elevação do sentimento politico póde coexistir com um opportunismo attento e flexivel, mas no fundo incapaz de corromper-se, sejam quaes forem as transigencias a que o pendor e instancia do momento possa coagil-o. O desenvolvimento e victorias successivas e progressivas do socialismo moderno nas monarchias da Belgica, da Allemanha, da Inglaterra e d'outros paizes, confrontado com movimentos parallelos nas republicas, quer da Europa, quer da America, tem-nos dado e continua a dar-nos abundantes e elucidativos exemplos da possibilidade de coexistencia da realisação de radicalissimas aspirações sociaes com instituições politicas e religiosas obsoletas, muitas condemnadas, e quasi todas n'um declinar de popularidade que as ameaça de morte. A observação dos factos, já longa e variada, inclina antes á demonstração de que a emancipação politica e religiosa dos povos, a transferencia plena da soberania para os elementos activos das nações e a libertação de todo o dogmatismo, para serem duradouras, estaveis e beneficas em toda a extensão, necessitam de ser precedidas de constituição social adequada. O primeiro passo na conquista das liberdades democraticas será a conquista do pão, como um direito e não como uma esmola. Sem isso, a oppressão e a tyrannia jámais se afundam; e medram, ou sob mantos d'arminhos ou nas casas fortes do capitalismo republicano, ou se chamem trust ou se intitulem czar. Quem sabe que desillusões não nos prepara a lucta terrivel do imperialismo e da democracia?! Quem póde assegurar-nos que um novo cesarismo não vae avassalar o mundo?!... Não se estará gerando um novo dragão d'esse consorcio infernal do capitalismo e dos armamentos monstruosos? E, se elle vencer, que doçura e supremo bom senso não coroará a memoria d'aquelles, como José Estevão, que por vezes nos teriam parecido hesitantes e timidos, sómente porque uma agudissima sensibilidade, revelando-lhe a justiça intima das cousas, os livrou de cair em extremos?!...
Paraphraseando o lema d'um agitador notavel da Inglaterra[[11]], que se insurgiu contra o egoismo industrial do seu paiz, talvez não nos affastassemos muito da verdade resumindo em tres palavras a concepção social e politica de José Estevão:--O altar, o throno e a choupana. Inspirado pelo deslumbramento da gloria do passado e pela sua força e opulencia, ao mesmo tempo exaltado por uma febre de justiça que não lhe deixava repouso emquanto não a visse triumphante, vibrando d'indignação perante toda a vilania, teria sonhado um estado de trabalhadores vigorosos, e sãos e dignos, na plenitude de bens do mundo e da consciencia, coroada a fortuna d'essas communidades felizes por um governo e por um culto resplendentes de magestade e nobreza. Porventura quereria que á elevação do sentimento correspondesse a grandeza das suas manifestações exteriores e a symbolisasse, na sumptuosidade e nos ritos, nos palacios, nas magistraturas e nos templos, satisfazendo necessidades indeclinaveis do coração humano.
De sua natureza mudaveis e sujeitas a infinitas contingencias, importam todavia muito pouco as concepções politicas, em face da sublimada inspiração moral que inflamou o genio de José Estevão e dominou todo o seu ser. «É mr. Lamartine,» disse elle, «um poeta que carpiu todas as miserias da humanidade, que exaltou todas as suas glorias, que excitou todos os seus melhores instinctos, que levantou a coragem dos povos, que acalmou as suas demasias, que suspendeu com a sua palavra todas as paixões revolucionarias da França; esse homem cuja composição moral e intellectual é no meu presentimento como o simulacro da fortuna politica e dos futuros governos da Europa...» Era assim que José Estevão, julgando pintar a physionomia alheia, traçava fielmente a propria imagem, e, honrando o nome estranho, entretecia a corôa de gloria que convém á sua propria fronte. Disse, felizmente, a sua eloquencia o que a nossa adoração seria incapaz de traduzir. N'essas curtas palavras, legou-nos um retrato precioso.
Procuremos agora observal-o com a pausa e carinho que um sentido culto exigem.
[[11]] Oaslter.