Mas de todo o desastre cobrava animo. Não se quedava paralysado pelo extasi de triumphos ou desalentado pelo espectaculo d'infortunios. Porque ao fim de vinte annos de luctas politicas via reduzidas a proporções mesquinhas as conquistas do seu sonho, não cruzava os braços, abandonando o campo a inimigos, mais persistentes e activos na ruindade do que os bons nas obras de salvação. O abandono poderia ser solução para ambições ephemeras dos temperamentos vulgares; não o tolera, porém, o espirito heroico. Emquanto houver a disputar um beneficio, uma esmola, um lenitivo a tormentos, haverá eternamente motivo de combater. Hoje bate-se por uma cidade, amanhã por um castello, depois por uma choupana; hoje desembainha a espada por Deus, amanhã por sua dama, depois pelo rei, e depois ainda pelo infimo servo: jámais se convence de que o seu braço possa jazer inerte, deante do si tem continuamente visões que lhe exigem o esforço.
Em 1852 os tempos iam bem mudados do que haviam sido em 1838. As liberdades publicas e as garantias constitucionaes, embora claudicantes e mutiladas, tinham finda a jornada, acabando por alcançar nas leis do paiz os mediocres logares d'uma acanhada victoria. Mais não tinham podido conseguir, e o resto, aquillo a que debalde haviam aspirado, já não encontrava paladinos que partissem a disputal-o; de tanta vez tentado e tanta vez vencido, entrava para os mais timidos e menos credulos no rol das utopias. Comprehendia-o o tribuno, e com a sua sorte se resignava; porque elle tambem declarava bem alto, na presença dos representantes da nação, que «não estava disposto em nome de palavras, em nome de tradições, a applicar o seu fraco talento e a sua saúde a revoluções sem substancia, a ministerios sem principios e a coalisões sem necessidade. Não estava para isso. Isso não era vida para um partido forte e robusto. Preferia antes reduzir-se á sua pobre e insignificante individualidade, do que andar naquellas estafadeiras politicas em que se estragam as faculdades e não se faz nada para a causa publica»[[24]].
Do que agora se tratava, a exemplo do que se fazia nas outras nações da Europa mais adeantadas, era de procurar a paz e o pão para o malfadado povo portuguez, exausto de luctas vãs em que dissipava as forças e a fazenda; do que se tratava era de pôr em ordem e prospera a casa arruinada pelos devaneios de correrias politicas infecundas, restituindo-lhe muitos bens perdidos e acrescentando-lhes o valor por um cultivo mais esmerado. Pelo correr natural dos acontecimentos, a riqueza constituiu-se para nós, como para muitos outros povos, o primeiro elemento de fortuna e grandeza, e José Estevão, não desconhecendo a situação nem podendo ficar indifferente á atracção d'esse explendido crescer dos recursos economicos d'aquelle momento, persuadido de que era mister para a sua patria render-se ás condições e exigencias da nova phase do liberalismo, inclinou-se a coadjuvar aquelles nos quaes reconheceu arte para edificar o quer que fosse d'uma utilidade manifesta, duravel e fecunda, entre o marulhar tremendo da corrupção dos homens e da contingencia das cousas. O soldado tornava-se obreiro, deixaria a espada pelo alvião; e trocava-se o manto de magistrado pela blusa do trabalhador. O guerreiro surgiu-nos transformado. Mas não mudou nem de logar nem de coração, que sob todo o vestido era o mesmo, inviolavel; não se turvou a limpidez da energia moral com que manejou ambos esses instrumentos da felicidade humana, em ambas as situações e attitudes foi identico a si mesmo. «Estava a desapparecer totalmente», disse, «a geração que inaugurára a liberdade na nossa terra. Para os feitos e para os homens d'esse tempo começára já a posteridade. Á pressa, no ultimo quartel da vida, procurava essa geração resgatar o tempo perdido em banalidades revolucionarias, deixando algumas obras que lhe abrandassem a severidade dos vindouros»[[25]]. E elle vinha pagar o seu tributo á redempção com a mesma generosidade com que o pagára ás illusões. Tambem caíra em falta; justo era portanto que partilhasse tambem da penitencia.
No mais vivo ardor das conquistas liberaes, em 1839, prosentira já que uma segunda tarefa nos esperava; tinha bem presente a magnitude do problema economico e afigurava-se-lhe que «viver d'industria era o grande pensamento d'aquelle seculo»[[26]]. E dezoito annos mais tarde, em 1857, pretendia que «os homens de todos os paizes que por diversos modos estão empenhados na civilisação e no progresso, os industriaes mais activos e mais emprehendedores que querem vêr postas por obra as suas concepções... o que teem em conta são governos solicitos, que aproveitem os paizes que administram, que os fazem cultivar e produzir quanto cabe em suas naturaes faculdades»[[27]].
Por isso applaudiu, quando despontaram, os actos governativos que inauguravam a nova era. Louvou a creação do ministerio das obras publicas e enthusiasmou-se pelos caminhos de ferro. «A creação do novo ministerio das obras publicas e industrias applica ao fomento do paiz os cuidados e o prestimo da auctoridade publica. Isto importa a medida do governo, pois quanto existia na administração publica para promover as industrias ou abrir communicações era por tal modo desmaselado, rotineiro e burocratico, que quasi se podia dizer que aquelles interesses sociaes estavam eliminados da gestão governativa, e entregues á sua propria força, escassa as mais das vezes para lhes dar uma existencia mesquinha, e quando muito, bastante para as arrastar a esforços inuteis e desconcertos deploraveis. O caminho de ferro de Lisboa ao Porto é a maior medida que se podia tomar para imprimir nova vida a esta nação... é o primeiro manifesto de adhesão á moderna economia das nações»[[28]].
Da bondade e legitimidade da obra a que José Estevão agora dedicava o talento, e na qual era um trabalhador de extraordinaria importancia, não tinha duvida. O passado e o presente não se contradiziam, completavam-se. Um incidente, um novo aspecto, e passageiro, da administração e da politica nacional,--não era outra cousa a regeneração; de modo algum prejudicaria a inteireza do sentimento de quem sem reservas e constantemente consagrára á sua patria todo o coração. A simplicidade da situação moral era perfeita. E, na carta que dirigiu aos eleitores e foi escripta em Aveiro em fins d'outubro de 1852, reconheceu-a com uma lucidez e escrupulo que desvaneceriam toda a hesitação d'espiritos menos promptos em penetrar os motivos da ultima attitude do setembrista exaltado. «Senhores eleitores», dizia, «não busqueis por agora em mim o homem politico. Esse não sei se morreu em alguma das batalhas ultimamente pelejadas pela liberdade ou se come no exilio o pão estrangeiro. Quem se vos apresenta, é simplesmente um homem ingenuo e um cidadão, que julga ser util ao paiz, encaminhando os negocios do estado pela vereda que vos indicou, e que se paga de todos os trabalhos e desgostos da vida publica com a honra de merecer os vossos votos. E, para nada vos encobrir, esse mesmo homem, apezar das suas convicções profundamente democraticas, chega com as suas sympathias a um dos lados do throno. A ninguem peço venia para esta respeitosa affectuosidade, porque para todo o homem livre a religião das ideias e a dos sentimentos são dois cultos independentes e tolerantes»[[29]].
Quando morreu a rainha D. Maria II, José Estevão, n'um dos seus muitos impetos d'eloquencia, que eram ao mesmo tempo a apreciação das obras alheias e um exame de consciencia coram populo, a justificação do seu passado e a razão do presente, disse-nos como no seu espirito se lhe representava o desenrolar da historia politica nacional nos annos em que n'ella influira tão poderosamente; d'onde se partira, em que altura nos encontravamos e para onde convinha que nos dirigissemos. A passagem é de superior importancia para elucidação da sua vida:
«Honrada familia de liberaes, d'esses liberaes iniciadores, homens crestados da polvora, macerados de fome, amarallecidos pelas masmorras, torturados pelo exilio, e que espalhados na terra que é duas vezes nossa, uma pelo direito do berço, outra pelo direito do resgate, conservastes sempre immaculado o dogma, a doutrina, por que tanto sangue e lagrimas se derramaram! Estaes, nobre familia, bem rareada, bem reduzida, bem proxima a sair inteiramente do livro dos vivos, e entregar á nossa gente o fructo das nossas fadigas, das nossas dores e das nossas gentilezas... Mas todas estas mortes são glorias, são triumphos,--glorias, triumphos para o que ha no mundo verdadeiramente grande, alto, sublime,--a sorte dos povos e os progressos da humanidade. Foi-se o legislador e o capitão da liberdade, e a liberdade não pereceu com elle. Vae-se a rainha a cujo direito dynastico a liberdade se amparára, e a liberdade fica vivendo na sua propria vida. As instituições teem entre nós resistido por longo tempo á acção desregrada dos partidos, á ambição turbulenta dos estadistas, ao desleixo governativo, ás corrupções desaforadas, ao desequilibrio dos poderes, ás exaggerações populares, ás restricções governamentaes. As liberdades publicas, por vezes oppressas e cerceadas, quebraram afinal todas as prisões, restabeleceram todo o seu poderio, e nem mesmo nos dias de maior provação esconderam o seu direito, nem appareceu alguem que se atrevesse a negal-o despejadamente... Mas a morte da rainha é uma grande admoestação para os partidos. Façamos todos exame de consciencia, já que Deus nos avisou n'um dos poderes da terra. Os partidos tambem teem poder, tambem teem vida, e são chamados a contas. É no interior dos seus archivos, e não sobre a sepultura dos reis, que se faz o inventario das prosperidades dos povos. Acabou-se já um reinado depois do systema constitucional, e se foi pequeno para a vida da rainha defuncta, não o foi para o tempo que costumam passar no throno as testas coroadas. Que fizemos durante esta epoca? São desenove annos preciosissimos pelos acontecimentos que n'elles correram, pelas descobertas que durante elles se fizeram, pelos beneficios sociaes que se inventaram, pelas uteis emprezas que se levaram ao cabo. Aproveitámos nós todas estas vantagens, imitámos todos estes exemplos? Comprehendemos o espirito do nosso seculo? Démos ao paiz todos os melhoramentos que lhe podiamos dar? Levantámos cada classe á altura a que ella podia subir? Honrámos a geração a que pertencemos, a nação que nos deu o nome? Responda cada um a si, responda á sua consciencia que é o mesmo que responder a Deus. E seja o que temos feito aviso para o que temos de fazer... Estamos em regencia... O regente sabe melhor do que ninguem o que nos falta... Um regente plantou n'esta terra as liberdades publicas, plante outro entre nós a civilisação sem a qual ellas não podem arreigar-se nem medrar. A obra é de todos e para todos. Empenhemo-nos portanto n'ella com animo leal e resoluto»[[30]].
A estrada talvez se lhe afigurasse plana e facil, mas, ai d'aquelle em quem encarnou o idealismo, heroico ou sonhador! Cada esperança, cada amargura; em cada passo no caminho da aspiração o assaltam e torturam desillusões. A candura de José Estevão representára-lhe na regeneração uma empreza, honesta e chã, de fomento da riqueza, e pelos meios que a epoca aconselhava e eram manifestamente convenientes. E, sem duvida, deshonesta não era na intenção e lisura com que concedia á miseria dos homens, á satisfação de muitas das suas fraquezas, aquelle quinhão indispensavel para que se mantivessem quietas e não fossem impedimento á realisação de mais altos destinos. Um dia viria, porém, em que, pelo crescer d'influencias perniciosas, os termos d'esta perigosa arte de governar haviam de inverter-se; e, depois de se haverem empregado as fraquezas dos homens em beneficio da nação, depois de se usar a corrupção para alcançar o bem publico, aconteceria que a nação seria explorada em beneficio das fraquezas e o bem publico sacrificado á corrupção.
Portanto, errára? perguntaria ao tribuno a consciencia atribulada. E uma voz intima o tranquillisava: