«Infelizmente as qualidades do rei careciam d'aquelle equilibrio que contrapeza os bens com os males da vida. Nos raros gosos que a sua sorte mesquinha lhe consentiu, sentia sempre o amargo essencial que ha ainda nos affectos mais gratos da vida. Por outro lado o pezar para elle era extremo: não levava em si nenhum lenitivo. O seu espirito não comprehendia as atenuações naturaes de todo o infortunio, nem o seu coração era feito para conhecer a alegria da desgraça.

«A expressão será temeraria ou infeliz; mas ha nas mais densas cerrações da alma uma luz, embora tenue, que rasga a escuridão e que nos deixa enxergar ao longe horisontes menos carregados, e ás vezes até risonhos. Para além d'estes horisontes estanceiam as consolações humanas, tão variadas e efficazes como são numerosos e terriveis os males da vida. Mas o rei não respirava as auras d'aquella região. Não sabia consolar-se, e falto d'este auxilio indispensavel nos tormentos do mundo decaiu na superstição do infortunio. Julgou-se votado a elle e curvou-se á sua sorte»[[44]].

Foi este o monumento, do qual apenas destacámos um pedaço, que José Estevão ergueu sobre a sepultura de D. Pedro V, logo apóz a sua morte. Depois d'elle, outros vieram que pelo bronze e pela palavra tentaram consagrar a sua memoria. Nenhum, porém, jámais o excedeu, nem sequer o igualou, na resurreição da nobreza ingenita do rei e da magestade tragica da sua queda.

Pelo labor expontaneo das suas energias, o genio de José Estevão constituiu-se n'um tribunal, esclarecido e augusto, com tanta rectidão para condemnar a perversão criminosa e a combater, emquanto importasse estorvo ou aggravo á felicidade humana, como magnanimidade para sanar por indulgencia as feridas que por dever fosse coagido a rasgar.

Quando deixou de pulsar o coração que o animava e movia na terra, foi um dia negro; espalhou-se em torno como uma onda de sombrio e desesperado terror. A profundeza da dôr confessou a magnitude da perda. Emudecera para a democracia, para os apostolos dos seus sonhos e para os opprimidos das escravidões que a suffocam, o eleito que lhes ouvia os gemidos e lhes interpretava a anciedade, quem lhes restituia os direitos e lhes fazia vingar as aspirações. Não era um homem que a morte arrebatava; era um templo sagrado que se submergia. Não era um tropheu dos escudos nacionaes que se esfarrapava, uma flamula das suas glorias que se desfazia; era um écco da justiça divina que para sempre se calava, precipitando em angustia os que consolava, defendia e amava.

[[36]] Discursos, pag. 118.

[[37]] Discursos, pag. 91, 93, 95, 101 e seg.

[[38]] Discursos, pag. 132.

[[39]] Discursos, pag. 77.

[[40]] Discursos, pag. 322.