Saint-Simon, representando uma vigorosa reacção contra os excessos doutrinarios do seculo XVIII, que lucidamente considerou um periodo de critica e dissolução, ao qual tinha de oppôr-se no seculo XIX uma epoca d'organisação, viu como seria insufficiente a destruição do passado, que aliás não amava, se ella se limitasse a mudanças da forma do governo, sem alterar as demais condições religiosas, moraes e economicas de que dependia a felicidade dos homens. E, comprehendendo a inanidade da revolução propriamente politica, desenganado pelos acontecimentos, de que em França era testemunha, inventava uma aristocracia de homens capazes para governar as nações, abolia o direito de successão na propriedade, estabelecia condições de iniciação na vida iguaes para todos, reclamando que «os instrumentos do trabalho, terra e capital, fossem possuidos pelos membros unidos da sociedade», e sonhava o estado perfeito, a communidade em que os mais aptos tivessem todo o poder e uma parte ampla do producto, procedendo de modo a que o estado trabalhasse para melhorar a condição material e moral dos mais pobres.
Seguia-o de perto Fourier, embora se imaginasse longe[[9]]. Descobrindo no homem a paixão do uniteismo, que significava a tendencia natural dos homens a juntarem-se em grupos sociaes e trabalharem juntos pelo bem commum, em vez de combaterem entre si tomando para regra moral e lei um systema de disputa, tirava d'ahi a sua famosa «phalange» ou unidade social, de que muitos se riram mas que, apóz varia sorte e criticas de todo o genero, hoje se verifica ter proximo parentesco com a concepção moderna da municipalidade socialista. Esses planos, que pareceram phantasia d'um sonhador generoso, modificaram-se e completaram-se; e hoje não será desacerto tel-os como simples antecipação de formas de vida social, que em muitos paizes se vão experimentando e propagando, com não pequena vantagem e efficacia na boa ordem das sociedades.
Tudo isso, porém, que foi muito na evolução da democracia e na definição, inevitavelmente lenta, das suas necessidades e aspirações, foi muito pouco perante um facto de maior alcance, que José Estevão teria observado e ponderado, devendo encontral-o na edade de maior energia politica. Por certo não lhe escaparam nem a apreciação da sua essencia nem, muito menos, a previsão das consequencias larguissimas que virtualmente importava.
1839 e os annos que se lhe seguiram até 1848, marcam na historia do socialismo uma epoca notabilissima, a passagem do socialismo utopista e negativo ás reclamações positivas e cathegoricas d'um programma de governo. Em 1839 publicou Luiz Blanc a Organisação do Trabalho. D'ahi podemos datar uma era nova. Para os interesses das grandes massas trabalhadoras, estava julgada a esterilidade do reinado dos Bourbons, da convenção, da republica, da dictadura, do consulado, do imperio e depois ainda da restauração monarchica. Quasi meio seculo d'experiencias revolucionarias e reformadoras concluia, na meditação do pensador politico, pela necessidade de inscrever entre os deveres primordiaes do estado a garantia de trabalho regular a todo o cidadão. Como consequencia directa, immediata, o trabalho tinha de ser organisado sob a direcção do estado--granjas para os lavradores, fabricas para os operarios e armazens para os commerciantes, convertidos em propriedade sua, do estado, todos os grandes instrumentos de riqueza, os canaes, as minas, as grandes industrias e os bancos. As associações cooperativas, que Fourier e Owen deixavam á iniciativa e bom senso particular, passava-as Luiz Blanc a encargo do estado. As «officinas sociaes» do grande reformador foram talvez uma das mais claras antecipações da constituição do estado socialista. «Pedimos a communidade dos trabalhadores», escrevia elle em 1840, resumindo as reclamações revolucionarias, «isto é, desejamos abolir o commercio dos homens no trabalho dos homens, e, em vez d'isso, estabelecer officinas nacionaes em que a riqueza produzida se reparta entre os trabalhadores e não haja mais servos nem senhores».
Estava fundado o socialismo como elemento politico e força activa, com direitos exigiveis e exigidos na constituição social das nações, nos seus costumes, e sobretudo nas suas leis. Fossem quaes fossem os desastres das primeiras tentativas, o socialismo passára, d'uma vez para sempre, das dissertações especulativas, em que a compaixão de suppostos visionarios o concebeu, para as assembleias dos legisladores em que as nações teriam de determinar as condições praticas da sua execução.
[[5]] Hoje tornou-se clara e corrente a interpretação d'estes factos. Mas, para mostrar que labyrintho representaria no tempo de José Estevão, bastará lembrar que, quando Oliveira Martins pela primeira vez a fez magistralmente no Portugal Contemporaneo, com relação á nossa historia politica, ainda então muito bons espiritos lhe desconheceram a exactidão. E a muitos pareceu um reaccionario, miguelista, porque não commungava na furia liberalista de deitar abaixo; a outros se afigurou blasphemo e sacrilego, a cuspir censuras, quando apenas apontava erros e fraquezas de glorias consagradas; e para outros não merecia confiança, ia para o rol dos utopistas e incomprehensiveis, porque não se emendára d'aquelle socialismo dos bons tempos que partilhou com Anthero de Quental.
[[6]] 1771-1858.
[[7]] 1760-1825.
[[8]] 1772-1837.
[[9]] Fourier, referindo-se a Owen e Saint-Simon, acautelava o leitor contra os «laços e charlatanismo das duas seitas», não considerando as affinidades manifestas da «cidade» de Owen e da aristocracia de Saint-Simon com as suas proprias aspirações, que consistiam na organisação da industria do modo mais conveniente aos interesses collectivos. Todos tres partiam d'um principio--a producção da riqueza em beneficio da communidade.