Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco séculos depois de haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia o talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época.
A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só as circunstâncias de determinado momento haviam originado e desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas.
De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça. Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo, lembra-a nestes termos de simpatia:
«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres.
«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne, e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais activas... Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei esse sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões estranhas tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adesão aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência de carne dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade não tinha medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas que odiava a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos dietéticos, e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a refeições mais suntuosas»...
«Isto digo com a intenção de vos provar como são poderosos os primeiros impulsos da mocidade para o que é mais verdadeiro e melhor, sob a exortação e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa dos nossos guias, que ensinam como se disputa e não como se vive: e em parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem não tanto a disposição do espírito como as faculdades da inteligência. D'esta forma, o que foi filosofia, tornou-se em filologia». (Epistola CVIII.)
Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua época, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salústio, quer que «sejam contados entre os animais inferiores e não entre os homens» e lembra que «em tempos mais simples não havia necessidade em tão larga escala de tantos médicos supranumerários, nem de tantos instrumentos cirúrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A saúde era simples por uma razão simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenças. Note-se que vasta quantidade de vidas um estômago absorve--devastador da terra e do mar. Não é de espantar que em tão discordante dieta a doença varie incessantemente... contem os cozinheiros e não mais se espantarão do número incontável das doenças humanas.»
Por êsse mesmo tempo Musónio Rufo, outro filósofo eminente, sectário tambêm do melhor estoicismo, declarava «brutal» o uso da carne, «sómente próprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a inteligência. Os vapores que dele vem são túrbidos e escurecem a alma, de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais lentos em apreender.»
Mas para que alongar-nos em citações de nomes e rememoração de doutrinas dos filósofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por nocivo à justiça e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um só homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais exaltada sensibilidade moral, pôde por honra da espécie e glória da humanidade resumir todo o problema dietético com uma profundeza exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apóstolos da sua doutrina até hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos seculos pouco ou nada acrescentou?
Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo século da éra cristã. São um monumento, até hoje e por certo para sempre inabalável, da dignidade humana. Lá encontraremos a causa do vegetarismo posta em termos de tal evidencia que constituem como a razão ultima da sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiológico.