Sonho dos astros que alimenta o sonho dos corações que ao sonho se renderam, a servi-lo votando todo o sangue e outra fé não querendo conhecer, vagueia sobre os prados o luar, cobre as águas do rio, e na floresta, sorrindo brandamente, confundiu-lhe em vagabunda alvura e infinita a mais ousada haste e a mais pequena, a mais endurecida e a mais tenra. A tortura dos ramos, mutilados pela rajada agreste de dezembro, e a doçura das frondes ainda débeis, incertas da sua forma e robustez, repassadas da pálida verdura em que as sustenta de suave orvalho um tépido abril, por igual as involve na sua paz. Espargiu sôbre a terra a mansidão; renovou-a em candura, resgatando-a de seus espinhos, sombras e asperezas. E a terra, humilde, silenciosa, e muda, e religiosa, como virgem que a Deus se consagrou e de um mundo cruel se desprendeu, adormeceu feliz, santificada no seio da pureza que a protege, por graça do luar isenta e livre de agitados errores que a ferem e mancham, e dos tumultos vãos que a atormentavam, de quanta fealdade a entristecia e de quanta escuridão a desvairava.

Consolador, 'místico luar, êsse que soube e ouviu na sua glória as ternuras ocultas e queixosas, devaneios que a vida atraiçoou, anseios que o mundo nega se os escuta, saudades, desventuras e lamentos da cegueira contrária dos destinos; o sonho eterno da eterna luz dos céus, que nos sonhos dos homens se engrandece e benignamente lhes responde e compassivo os ama e acrescenta:—êsse foi senhor meu e ao seu império, ao seu casto império sujeitei-me, contente, apetecendo-o. Por lhe oferecer a misérrima oferenda do meu peito, contei impaciente e inquieto em esperança e penas as horas que corriam e as que tardavam; ou sôbre o mar o visse declinar, ou atento aguardasse o seu rubro surgir de alêm dos montes, jámais o pressenti, jámais o vi, jámais me abençoou ou me deixou sem que estranho pulsar me alvoroçasse, para só ao seu mistério confiar mistérios indizíveis da minha alma, para ali os guardar na candidez de luz que os defendesse da corrupção da terra e seus ultrajes.

XXII

Ouvem-se perto os mangoais cantando os pausados cantares do seu mestér.
Outras eiradas andam a aloirar os milhos sazonados copiosos.

Já vergados os turgidos vinhedos despertaram delírios das bacantes; e às macieiras córa-lhes os pomos o sol amortecido, emfim liberto de abrazado ardor canicular. Ainda incensam a tarde derradeiros perfumes do jasmim, mas, a dizer-nos que o estio finda, floriu côr de rosa o eloendro. E aquela madre-silva que murchára sob a calma do mês de S. Tiago, de novo desprendeu seus ramos ágeis, de novo nos mostrou a palidez do cálice que verte os seus aromas, rediviva ao respirar primícias da mansidão do outono, generoso de frutos e carícias.

E deleitosamente, ávaro e ávido, eu colho o meu quinhão de encantos e de pão e de abundância, como se fôsse meu, me pertencesse, vagamente sonhando, em cego orgulho, que era só minha a terra e o seu sustento, e a caridade infinda do Senhor só para meu benefício se gerára, e só para me servir ela existia, só para meu contentamento e meu deleite.

Algures, porêm, passou uma voz rebelde, de dôr e de queixume e desalento. Uma sombra sinistra me turvou a alegria soberba dessa hora, seu repouso e ventura triunfantes. Meu domínio e riquezas, severamente os julga o desamparo, para o qual nem abril nem novembro teem mudança e por igual são negros. Mensageiros de Deus mo anunciaram no frouxo clamor dessa mendiga que vi descer, curvada, dos montados, trazendo aos hombros o escasso feixe com que, cerrada a noite, irá avivar a amortecida cinza do seu lar.

Cansada, extenuada, face a face com a visão das penas da sua sorte, pousou a lenha à beira do caminho para rehaver alento que a animasse a levar a jornada até final.

E disse alto, erguendo aos céus cruéis o seu lamento:—«Meu divino Senhor!
Como é arrastada a vida que me déste!…»

Não a escutou a serena mudez inflexível dessa Vontade austera, onipotente, que a consagrára à cruz da desventura para a redimir em tronos de humildade. Mas ouviu-a, hesitante, sucumbida, a atribulada consciência tímida que, emquanto dura a palidez mortal da fome e da miséria, suspeitou em cada gozo uma traição, e repassa do mais amargo sal o pão e o fruto e quanto os lábios tocam, e entretece de espinhos todo o linho e toda a seda que nos cobre.