Mas vem a despertá-los a manhã. Além, onde as estrelas desmaiaram, o ceu pressente a aurora e o seu rubôr. E rochêdos, e igreja, e amieiros, e muros, e palácios, a criação dos deuses e a dos homens, e o próprio coração que Deus habita, acordam para sofrer uma outra luz, essa do sol cruel e inclemente na turbação candente de um ardor que por igual é vida e consumpção, géra e destrói.

Que destino adverso as amedronta para fugirem pálidas, vencidas, as sombras carinhosas do luar em que a nossa alma e a terra redimidas cantavam confiadas e felizes, como se estranha fé as afoitasse a dizerem segredos do seu seio, como se a sombra feita de ternura as confessasse e ouvisse cautelosa e lhes rasgasse os véus do seu mistério?!… Porque passaram, assim breves e inquietas, e tão pouco duraram beatitudes da salutar brandura que descerra os mundos só de paz e ventura, onde no extasi se dissipam mágoas, e a culpa se apagou, e não existem nem mentira ou traição ou a fraqueza?!… Para mais queridas serem e desejadas, foram curtas, aladas como fumo, essas graças celestes do luar que em seus tronos pozeram as quimeras, resplendentes, coroadas nas alturas?!…

Embora!… Não fugiram, porém, tão apressadas que eu, preso da saudade, as não seguisse e, seu escravo, não as sirva e ame, fiel, obediente, em seu infindo rasto e eterna gloria.

XXV

Subi ao cerro agreste onde encontrei a morada da morte. Estava aberta a meus pés a sepultura e cavado na rocha o ataúde.

Em torno Deus espalha a formosura, alvorôço o tumulto da beleza que me engrandece a alma e alegra os olhos:—rosais e sebes repartindo a terra, os campos, os caminhos e os vilares, como se aroma e viço fossem donos, soberanos doadores munificentes e ríspidos juizes dos bens que a terra cria;—os lares encastelados nas encostas, fumegando, estrelas de humildade e caridade recatadas, acesas entre os colmos;—seáras e pomáres;—as ermidas orando piedosas, a interceder por nós lá nas alturas, rogando a Cristo e a sua Mãe Santissima, e aos bemaventurados que a sonharam e para a sua presença renasceram que a ama-los nos ensinem e nos conduzam, e aos seus pés nos levem e ajoelhem;—as frondes dos carvalhos;—a soberba robusta dos pinhais;—os indómitos píncaros dos montes;—as águas apressadas pelos vales, de rocha em rocha a abrirem a sua estrada e cobrindo de verdura os seus haveres;—e as urzes de montado que preferiram, sem invejarem sorte mais feliz, vestir de encantos a braveza do chão e ungir a aspereza transmudando em çarças floridas a indigencia;—e, como balsamo do poder divino, tal qual fosse uma briza, emanação que descida dos céus nos acordasse o peito endurecido por morbidos torpôres em que a indiferença séca e corrompe a vida em sua imortal essência, em seu amôr; mais alta do que a voz da natureza, dominando-a, vencendo-a e consagrando-a, a voz do coração, dizendo ali murmurios de carinhos remansosos, ali nos libertando por instantes da dureza do mundo e das suas penas, para erguer-nos aos reinos que o mundo não alcança e sómente o coração possue e nos concede.

Mas, aberta a meus pés a sepultura e cavado na rocha o ataude, a sedução de morte, sem temer quanta beleza ali me extasiava, de súbito acendendo o seu lúgubre facho e iluminando a formosura que era meu enlevo, repete-me aos ouvidos as tentações da sua redenção. E serena, na brancura dos anjos, lançando para longe o véu sinistro e o manto negro em que surgira involta, mansamente me diz, consoladora:

—«A ventura suprema e toda a gloria só por mim serão tuas! Em meu seio é cinza quanto avistas, o roble e a rosa, como o poder humano e a sapiência; a féra, o santo, o crime, e vileza e candura; quanto te atrái, fascina e tu procuras, e quanto por aversão foges e temes. Tempos e espaços, o edificio mais alto e o maior feito, o heroismo, a dôr, a herva e o cédro, o ódio e a paixão, o mármore e o vérme, e os sóes mais luminosos que convertem a noite em esplendôr, todos em cinza acabam e em cinzas guardo na profundeza infinda do meu seio. E a todos restituo a vida e o ser, para sempre isentando-os do temôr, do pecado e da incerteza, a todos eu conduzo à vida eterna, à vida imarcescivel da saudade!»

FIM

DO MESMO AUTOR