As instigações do instincto, auxiliadas pelos conselhos da mãe, não tardaram a operar rapidamente a mutação; dois annos depois de sair do collegio, com pratica d'alguns salões da capital, de S. Carlos e da Figueira da Foz, Leonor tinha feita a sua reputação de bondade, de formosura e boa educação.

A mãe, astuta, nunca perdendo da lembrança o padre, anceiando pelos tempos de tranquillidade que com elle passava em Cercosa, espreitava o ensejo de casar a filha. O destino breve lhe deparou boa fortuna. A victima foi o filho d'um brazileiro do Minho, novo e riquissimo, que do Porto veiu á Figueira ostentar as suas carruagens e os seus anneis e procurava afidalgar-se pelo casamento.

Exultou quando o viu seguir a filha. Era a felicidade para ella e talvez para toda a familia, porque o rapaz decerto ia pagar as dividas da casa do Albuquerque que dia a dia se afundava vertiginosamente. Teve uma certa difficuldade em convencer Leonor, que soffria d'ambições de fidalguia, mas o amor do luxo tentou-a e o casamento realisou-se.

D. Maria Francisca podia voltar mais livremente a Cercosa, até que Laura deixasse o collegio. Leonor tinha do marido tudo quanto queria e elle se julgava obrigado a conceder á nobreza e ao lustre que ella trazia ao plebeu.

Só os calculos de resgate das dividas se desfariam em desillusões, porque o brazileiro, rehavendo para isso toda a energia d'um bom burguez, defendia-se tenazmente.

Não queria saber dos negocios dos outros, tinha os seus capitaes muito bem collocados e não podia tocar-lhes.

Á sr.a D. Leonor, como respeitosamente a tratava, nada faltaria, nem mesmo o titulo de condessa da Maia que um deputado lhe promettera e as vastissimas propriedades, que n'aquelles logares possuia, justificavam.

José d'Albuquerque completamente convertêra em desenganos as esperanças dos paes. Por um capricho de hereditariedade, carecia absolutamente das qualidades que caracterisavam o temperamento dos paes, a vivacidade, o amor do luxo e dos prazeres.

Era um philosopho, diziam. Levára arrastadamente os seu estudos, não por falta de intelligencia, que realmente possuia grande reflexão e bom senso, mas por incuria e aversão ao que os mestres lhe ensinavam.

A cada momento deixava os livros da aula, para se entregar á leitura das velhas chronicas que ha muito jaziam abandonadas no seu palacio e tinham pertencido a um seu remoto ascendente que fôra conego da sé de Coimbra.