—É muito bom rapaz, todos lhe diziam, e deve estar muito bem. Além do que elle comprou ao fidalgo, tem muito dinheiro; calculam-lhe para mais de cem contos que herdou do tio. Elle diz que não, que apenas recebeu de lá uns quarenta contos, mas é claro que essas cousas nunca se confessam.
Ao jantar e na palestra que precedia as partidas de whist, emquanto o creado punha sobre a meza as marcas e os baralhos de cartas, collocando aos cantos os castiçaes de prata e os cinzeiros, o velho fidalgo, no sofá encarnado, perna cruzada, a pôr em evidencia o seu pé pequenino que toda a Beira galante conhecia, não cessava de elogiar o amigo do seu José.
—Uma joia de rapaz! exclamava. E de boa familia...
O seu enthusiasmo ia ao ponto de imaginar fidalguias para o seu futuro genro. Não sabia ao certo... mas pelo nome era indubitavelmente descendente d'uns Souzas, muito nobres, ainda parentes do duque d'Aveiro, que viviam em Albergaria quando foi da invasão franceza.
Os francezes queimaram-lhes o palacio; elles, desgostosos com isso, nunca mais lá voltaram, foram morar para umas herdades que possuiam no Alemtejo e mais tarde venderam tudo o que tinham no norte.
Depois, mesmo o nome de Portugal indicava alguma cousa. Em Semide conhecia uma familia com aquelle appellido, parente dos condes de Montemór que, como se sabe, eram da mais antiga nobreza do reino.
No fundo, o velho Albuquerque sentia uma ligeira contrariedade ao pensar no casamento da filha com Claudio. Tentando convencer os outros, procurava ao mesmo tempo desvanecer as sombras que lhe empannavam o espirito. Claudio não era, infelizmente, fidalgo; só por triste necessidade de ruina o acceitaria para marido de Laura.
Não tardaria que isso succedesse, porque, emquanto os Albuquerques se davam a este novo sonho de riqueza, Claudio resolvia definitivamente a sua situação.
Na madrugada que se seguiu áquella noite tormentosa em que como doido deixára para sempre a capella da rua da Cruz, ainda no ardor da febre em que a anciedade o consumia, Claudio encontrava casualmente sobre a mesa um livro de Paulo Bourget, L'Irreparable. Leu e sentiu um subito despertar. Accordava, tinha encontrado a chave do enigma da sua existencia, a resolução de todas as duvidas. Recuperava o animo, n'esta esperança que d'antemão se lhe afigurava uma realidade.
Sim, comprehendia agora o que tinha a fazer, o que ha muito podéra ter feito, se a fraqueza o não tivesse vencido.