Nos aposentos de Laura e D. Maria Francisca, pelas cadeiras, pelas camas e pelos sofás estendiam-se rendas, plumas, flores e vestidos fôfos e ondeantes. A um canto da janella uma costureira apertava a cintura d'uma saia de seda que se espraiava pelo chão sobre um lençol de linho e que a modista mandára larga, errando a medida.

Para o casamento estavam convidados alguns parentes da Beira e uns fidalgos de Lisboa, companheiros de D. Pedro em S. Carlos, nas touradas e nos clubs.

Começavam agora a chegar em char-à-bancs, que os transportavam da estação do caminho de ferro, os da Beira com bahús de folha envernisada, mal fechados e ligados com cordas delgadas, os de Lisboa com grandes malas de couros macios, afivelladas com ferragens brancas e polidas como prata.

O Albuquerque recebia os hospedes, conduzindo-os aos seus quartos e mostrando-lhes em seguida as salas mal illuminadas, para não desmanchar os preparativos da festa, ouvindo com desvanecimento os elogios.

—Um palacio, uma palacio! Estás aqui como um principe!

D. Maria Francisca tomava as damas a seu cargo e recebia-as nos seus aposentos.

Pelas dez horas da noite caira tudo em relativa tranquillidade, os hospedes de Lisboa acantonados nas mezas de whist e as senhoras no quarto de D. Maria Francisca, mexendo e remexendo com a sua natural curiosidade o enxoval e as prendas de Laura, discutindo, apreciando e fazendo comparações com outros casamentos nobres a que tinham assistido.

—Vaes ser muito feliz! diziam com denguice para Laura.

—Parece-me muito bom rapaz, respondia D. Maria Francisca. Creio que ha-de saber estimal-a... E agora hão-de dar-me licença, que são horas de preparar a meza. Quero deixar tudo prompto hoje; se lá não vou abaixo, os creados não fazem nada. Uns estupidos!...

—Oh! tia, eu vou ajudal-a, respondeu uma das meninas recemchegadas.