—Vamos, desembarace-se, deixe-se de historias. Traga o leite, traga o leite. E não fique lá quatro horas, conforme o seu costume, ouviu?... Isto quem as atura...

—Oh, minha filhinha, continuou para Laura, talvez umas bolachas de araruta... Deves estar tão fraca!...

—Não, mamã, não; não me falle em comer. Sabe Deus o que me custa o tomar leite!

O leite veiu, Claudio e D. Maria Francisca sairam para não incommodar a doente que durante todo este tempo não tivera uma palavra de gratidão pelos seus cuidados, e, satisfeito o estomago, Laura caiu n'um somno profundo, a refazer-se da interrupção da noite.

Ficou resolvida a partida immediata para Lisboa, apezar da ligeira opposição de Claudio que viu assim desmanchados todos os seus planos de tranquillidade e estudo. Uma necessidade! repetia a sogra. Não quizesse elle tomar a responsabilidade d'uma cousa d'essas.

Dentro de poucas horas, estava revolvida a casa, os corredores atulhados de malas e os guarda-roupas desfeitos. Os vestidos de Laura occupavam duas grandes caixas, tendo-se contado com todas as hypotheses, os theatros, os bailes, as visitas, os passeios, a chuva, o sol, o frio, a humidade e o calor. As bagagens de Claudio tambem não eram pequenas. Laura temia um pouco a apresentação do marido aos parentes elegantes da capital e vigiava e com particular cuidado que nada lhe faltasse; gravatas, calçado, abotoaduras, alfinetes, bengalas, luvas, chapéus, tudo ia combinado ponto por ponto para que não discrepasse das leis vigentes do janotismo.

Em Lisboa passaram quinze dias que para Laura foram d'uma completa felicidade. Á parte as breves horas que dedicaram ao dentista, todo o tempo se dispendeu em visitas, jantares, theatros e apresentação de Claudio á numerosa parentela fidalga. O marido agradava; no trajar e nos modos não destoava dos usos e costumes correntes e essa conformidade com a banalidade consagrada deixava Laura radiante de jubilo e vaidade.

Não succedia outro tanto a Claudio que, regressando a Coimbra e pensando no caminho percorrido, via com mágoa quanto os factos divergiam das aspirações, quanto a realidade se distanciava dos sonhos.

No fundo, inconscientemente, a esposa que elle desenhára no seu espirito e nas suas ambições era a imagem de sua mãe, a honestidade, o trabalho, a resignação e a caridade distillados dia a dia, gota a gota, marcando todos os passos e todos os movimentos da vida; o que o casamento lhe offerecia eram vaidades e impaciencias, occultando um egoismo sem limites, tanto mais cruel quanto era instinctivo e inconsciente.

Lembrava-se da noite em que Laura o fizera ir a correr procurar-lhe remedio para uma passageira dôr de dentes e comparava a com a serenidade que sua mãe mostrava nas dores physicas e moraes; lembrava-se da simplicidade de Villalva e comparava-a com a vida de infinitas necessidades a que entre gente fina se deixava arrastar.