Em Coimbra, todos estes factos foram sabidos e commentados com rancor por D. Maria Francisca e pela filha, com simples curiosidade pelos frequentadores habituaes do palacio da estrada da Beira que, emquanto esperavam o chá, debatiam o caso em voz discreta agrupando-se nos cantos mais afastados da sala.
Interiormente indifferentes, no seu egoismo satisfeito com os ordenados pagos em dia e as digestões abundantes e tranquillas que os encaminhavam á obesidade, procuravam gestos de mágoa para successivamente exclamarem:
—Que pena! que pena! Um rapaz tão intelligente e que podia viver tão bem... casado com uma menina de tão boa educação...
Os de melhor consciencia, alguns lentes que porventura se lembravam das suas concupiscentes ousadias com as creadas, accrescentavam indulgentemente:
—Fraquezas! Todos as têm... Afinal tudo isso lhe ha-de passar e elle hade voltar á mulher e aos filhos.
Laura ficou apopletica de colera quando soube pela mãe as circumstancias em que o marido se encontrava. A sua inflexivel vaidade soffria um profundissimo golpe com a demonstração quasi publica de ficar preterida por uma mulher do povo.
—Não quero ser d'esse homem nem mais um instante! Vou mandar chamar o dr. Moraes para me tratar da separação. É demais!... Com uma mulher de pé descalço! Até me mette nojo! Que me ponha para cá o que é meu...
Ao ouvir estas palavras, D. Maria Francisca pensou que Laura tinha casado com separação de bens, e, reflectindo em que o divorcio poderia trazer-lhe grande prejuizo, apressou-se a aconselhar com insistencia:
—Oh, filhinha, isso não, isso não! Que escandalo! Deus nos livre. O que diria esta gente? Eram capazes de inventar que tu tinhas feito algum mal. Não te impacientes, não te impacientes! Até te faz mal. Já estás com umas rosetas na cara que são de fraqueza. Vae tomar alguma cousa. Anda, anda minha filhinha!
—Ai, Senhor!... exclamáva já no corredor dando o braço a Laura e encaminhando-se á sala de jantar.