Sem mais tardar e com grande anciedade pela situação do amigo, que se lhe afigurava cruel, escreveu-lhe palavras de conselho paternal todas impregnadas de carinho, de mágoa e de esperança. Procurava convencel-o, mostrando-lhe que a familia era o verdadeiro fundamento de toda a ordem moral na sociedade e relembrando-lhe as ideias com que a organisara; invocava os seus sentimentos de rectidão e de lealdade para exigir a fidelidade conjugal, ponderando a gravidade da offensa feita á esposa que a fraqueza propria do seu sexo e a impossibilidade de se desaggravar dignamente collocava em condições de obrigar todo o caracter nobre a respeital-a; e finalmente, n'uma curta confrontação da paz d'uma união legitima com os continuados vexames e a mentira d'uma ligação irregular, em que nem sequer os filhos lhe podiam dar o nome de pae sem recordarem a falta e a vergonha da mãe, pedia a Claudio que no proprio interesse da sua tranquillidade pozesse termo áquella vida tão contraria a uma salutar moralidade.

Claudio leu esta carta n'uma oppressão de magoa e compungimento. A condemnação do seu viver pelo maior dos seus amigos parecia-lhe quebrar um dos laços mais fortes que o prendiam ao mundo; alargava a devastação que ha muito se vinha alastrando em volta do seu coração. Mas, passada essa primeira dôr, sempre presente aos seus olhos a humildade simples de Maria, recobrou animo n'essa imagem e escreveu:

Meu querido Jorge:

Um mau fado presidiu ao meu destino e affastou de mim toda a alegria. A tua carta é o ultimo grito d'essa correria de dôres que ha muitos annos me persegue e que quasi me tem vencido.

Esperava-a, antecipadamente sabia que havias de condemnar o meu viver presente; por isso mesmo tenho addiado até hoje uma confissão que só novas magoas me podia trazer. Mas faça-se a tua vontade. Aqui me tens a ouvir-te submisso, d'essa submissão que será o derradeiro estado da minha alma, que não sei bem se é desengano de toda a ventura, indifferença pelas causas da terra ou consciencia e reconhecimento da propria fraqueza, abandono de toda a energia aos impulsos d'uma fatalidade cega.

Ouve-me, porém, ainda algumas palavras antes de me excluires da tua estima. Não é defeza, é confissão; não é a voz do orgulho que repelle a condemnação, é o queixume do culpado que a acceita sem revolta.

Sim! é verdade. Deixei uma mulher que tinha tomado por esposa legitima, segundo todas as convenções sociaes, deixei-a, deixei o filho que ella me tinha dado e a casa que com ella habitava, e vim esconder-me nas serras em que vi a luz, entre gente inculta, ligado pelo amor a uma rapariga do campo, tentando partilhar a sua humildade e a rudeza que tomei pela maior virtude e pela felicidade suprema. Abandonei a familia que tinha estabelecido, abandonando-lhe quasi todos os meus bens e riquezas, deixando-a n'uma vida de ociosidade, de abundancia e de prazeres, abandonei o luxo e uma existencia que me era odiosa, e fugi a acoitar-me nas caricias silenciosas da natureza e na protecção carinhosa d'uma mulher que me ama servindo-me.

Este é o meu crime, que por certo aos teus olhos parecerá uma vileza sem nome, imperdoavel.

Talvez não tão grande como a tua imaginação a representa! Talvez aos errores da minha desventura correspondam as alucinações da tua felicidade!...

Queres que o respeito da familia seja o alicerce de toda a ordem moral na sociedade e tambem eu outra cousa não pretendo. Se a familia é a união de dois seres ligados por sentimentos congeneres de trabalho, de consagração das suas forças á educação d'uma nova geração, de auxilio mutuo e mutua submissão, de renuncia aos prazeres da carne, de caridade e amparo para todos os desvalidos, não ha por certo melhor força para manter a ordem e a belleza moral na humanidade. Se a familia é a união de dois seres ligados pelas mesmas aspirações de riqueza, de tranquillidade e de socego egoistas, de comodidade e de luxo, de meza lauta e de ninho tepido e macio, com os filhos entregues a mãos mercenarias desde o berço até que a escola os entrega á sociedade, poderá ser uma inutilidade para os estranhos, mas, quando se tem a fortuna de possuir todas essas cousas apetecidas, é, para os seus favorecidos, um manso e ininterrompido regabofe. Se a familia é porém o encarceramento, sob o mesmo tecto e em volta do mesmo lar, de dois seres guiados por aspirações oppostas e nenhum d'elles disposto a ceder das suas ambições, em permanente conflicto, consumindo n'esses dissentimentos toda a energia que deveriam consagrar ao cumprimento da sua missão social, então não sei o que a familia signifique, além d'uma enorme e torpe mentira quando esta discordia se abriga sob formulas e exterioridades d'um falso respeito.