Para isto, para estas reflexões, não precisava dos livros, nem leituras nem sabios o inspiravam; o pensamento vinha-lhe do coração, espontaneo, brotando da alma como a agua do rochedo. Quem sabe?! Talvez fosse vão todo o caminho andado, tempo perdido o que gastára á procura da verdade, folheando com avidez os tratados de philosophia d'esses homens que diziam serem os mestres da humanidade!

O problema da sua existencia voltava-lhe ao espirito, cada vez mais instante, aggravado pelas muito particulares circumstancias que a morte do pae trouxera. Que fazer? que fazer?! Era essa a voz interior que a toda a hora lhe eccoava no peito.

Emquanto o pae vivia, a sua vida accommodára-se a um modo de cousas transitorio. Considerara a herança do tio como fortuna do pae e não consentiu que ella saisse da posse d'este. Ia vivendo tranquillamente com as flores e os livros, ora no seu jardim, ora na sala alumiada e silenciosa do modesto casal de Villalva, ora nas palestras da villa, ora em solitarios passeios pelos montes e pelas varzeas, herborisando e estudando, quando não se quedava a fallar com a gente do campo, interrogando-a sobre os seus rebanhos e as suas lavouras. Estudava agora, depois decidiria o que havia de fazer. Não o satisfaziam os livros? Era certo. Por vezes sentia um fastio invencivel de tudo aquillo e advinhava em si, sem as poder definir, outras ambições, outras esperanças, outros desejos. Depois, depois resolveria; emquanto o pae vivesse, não sairia d'ali nem queria saber dos seus bens.

Hoje as circumstancias são differentes. Passados os primeiros dias de mais pungente saudade, começa a pensar, com um firme proposito de resolução, no caminho que lhe convém seguir. Estava rico, com vinte e quatro annos, que iria fazer da mocidade e da fortuna? Ficar ali?

Era um convento, uma vida estreita, e os livros com que se tinha aconselhado diziam-lhe que a existencia era uma lucta, o ascetismo uma doença, e a expansão de todas as forças, de todos os apetites e de todas as paixões uma lei natural, porventura a condição do vigor e da saude. O luxo e todos os seus prazeres eram bons. Havia desgraçados a quem isso offendia? Illusão, não era offensa, era a lei do mundo; eram vencidos, seres inferiores que o progresso da especie exigia que se consumissem na miseria. Não era isso o que a mãe lhe ensinára e intimamente sentia-se inclinado á piedade, á modestia, á doçura e á tranquillidade? Vicios hereditarios, casos atavicos, que a regra era luctar, o signal de superioridade vencer.

Ouviu a mãe. Disse-lhe que estavam ali muito mal, sem commodidades e sem conforto, que queria frequentar mais assiduamente algumas relações que deixára em Coimbra, e por isso pensava em se estabelecer em Albergaria, d'onde mais facilmente poderia sair.

Demais, pensava em fazer uma longa viagem que era necessaria para se instruir; custava-lhe deixar a mãe em Villalva, entre uma gente estupida, sem recursos, sem medico, sem ter quasi quem lhe accudisse n'uma doença ou n'um desastre. Lembrava se do que acontecera com a morte do pae; por pouco deixou de se vêr sósinho nos seus ultimos instantes.

A mãe ouviu com grande pasmo e surpreza. Na sua simplicidade, tinha imaginado que tudo estava muito bem, o celleiro farto e a arca cheia de boas teias de linho. Não era aquillo toda a riqueza do mundo, não o considerava ella como supremo favôr de Deus e premio do ardor com que lhe orava? Isolamento não o sentia, que as horas eram poucas para o trabalho e corriam ligeiras no labutar constante. Tambem não comprehendia a falta de recursos; a doença e a morte vêm quando Deus quer, não temos mais que acceitar a sua santa vontade. Mas, se a Claudio convinha sair d'ali, fizesse como melhor fosse para elle. Vivera sempre para os outros e agora que já não tinha marido nada lhe custava obedecer ao filho. A paciencia e a resignação não conheciam limites n'aquella alma.

Claudio começou pois a cuidar com impaciencia da sua nova installação. Arrendou um palacio, á entrada da villa, do lado do poente, com pateo nobre, escadaria de pedra, grandes salas cortadas de largas janellas saccadas sobre basta cantaria, vasto jardim e pomares. Tinha sido, segundo se dizia, dos duques d'Aveiro, e agora pertencia a um avarento rico de Coimbra que o arrendava barato porque não o queria improductivo, não queria, na sua expressão, cavallos d'estado.

Vieram moveis caros, louças da India, quadros, bronzes e damascos, comprados nos bazares de Lisboa por onde Claudio andou em companhia d'um antigo amigo e condiscipulo que era de gente fina e muito entendido em bric-à-brac. Veiu tambem um landau e dois grandes cavallos francezes que tinham pertencido a um negociante que se arruinára em fundos hespanhoes.