Este rapaz que além se apeou d'uma carruagem, em frente da estação de S. Braz, na estrada que vem dos lados de Albergaria, atravessou a linha conchegando o gabão que o vento desconcerta, e, mal entrado na gare, em que só destaca uma carreta abandonada com poucos fardos, procura onde se abrigue. Estamos todavia n'uma tarde d'abril.
O rapaz seguiu vagarosamente, ao longo da gare; na porta em que leu «sala d'espera» abriu e entrou. A um canto, sobre o duro banco de madeira, dormitava um homem gordo, de lunetas, mãos nos bolsos e chapéu derrubado para os olhos; ao lado uma mulher esbelta e franzina, um olhar brilhante sob o véo que lhe cobria o rosto. O homem levantou-se levemente turbado, com modos submissos, e pareceu hesitar.
—Eu agora... contra a luz..., não distinguia bem. Perdoe v. ex.a! disse dirigindo-se ao recem-chegado.
—Eu tambem, como vinha de fóra e a sala estava um pouco escura, não o conheci á primeira vista. Foi necessario reparar um pouco...
—Então como tem passado v. ex.a depois da sua jornada ao estrangeiro?... Será melhor sentar-nos, acrescentou apressadamente o homem das lunetas sem esperar resposta... V. ex.a tem aqui logar... dizia affastando um cesto de morangos d'um sofá que parecia mais commodo.
—Muito obrigado, muito obrigado... Não se incommode... Em qualquer sitio...
E o rapaz ia a sentar-se quando o outro, abruptamente, o obriga a aprumar-se apontando-lhe a mulher.
—Minha mulher... o sr Claudio de Souza Portugal, um cavalheiro muito illustrado e do meu maior respeito!
Trocaram-se as palavras sacramentaes e todos se sentaram.
—Que extravagante modo de vêr! começou Claudio. Nas cidades, onde não faltam recursos, a Companhia dá-nos uma sala de espera com certo conforto, e aqui, n'este deserto, no meio d'um charco, reduz todas as commodidades dos pobres passageiros a um banco mal pintado e frequentado sabe Deus por quem. Na Suissa chega a haver, nas estações que estão nas circumstancias d'esta, uns pequenos quartos em que se pernoita com agasalho e aceio. Aqui, que barbarie!... Havemos de ser sempre assim; um paiz de toiros ha-de ser forçosamente um paiz de campinos. Tambem tem a sua belleza, é verdade; mas, quando se tem frio, uma manta do Ribatejo e duas taboas de pinho, confessemos, são pouco.