Tambem para elle, tambem para Claudio era chegada a hora de recolhimento no estudo, pelas noites de inverno ou pelas suas geladas manhãs, junto ao fogo propicio. Descansado o corpo das jornadas, banhado o espirito n'esta atmosphera amiga, havia então de estudar e, alliando com as leituras a recordação do muito que vira, as infinitas impressões que armazenara na memoria durante seis mezes em que correra sempre, n'este novo consorcio o estudo havia de ser captivante e util. Passaria ali o inverno, todo o verão seguinte, ainda outro inverno, e depois iria em nova viagem, pelo oriente. Assim proseguiria na sua educação.
Os dias porém iam correndo, estavamos já em meiado de novembro, e os livros trazidos de Paris jaziam intactos, em monte, a um canto do gabinete, entre recordações de viagem, um punhal de circassiano comprado em Tula, mosaicos de Florença e vidros de Veneza. Ia addiando a hora de começar como um estudante relapso; todos os pretextos lhe serviam, a necessidade de frequentar o lagar que precisava reparação, as visitas a antigos conhecimentos de Coimbra, um novo curral que construia em Villalva, á maneira do que vira na Hollanda. Dissipava o tempo n'esta inquietação, com um inconfessado temor dos enfados do estudo. Lia desconexamente grande copia de romances, Bourget, Tolstoi e os russos, cuja fama no occidente despontava a este tempo, mas os volumosos tratados de sciencia e de philosophia continuavam esperando.
Ás vezes sentia saudades de Londres, de Paris e dos seus prazeres. Estudo, lavouras, deveres sociaes, destino da sua vida, tudo passava então ao rol das phantasias. Tinha vinte e cinco annos, uma fortuna regular, que fazia ali, para que privar-se de gozos? Não eram o seu legitimo direito? Amar, beber, regalar os olhos e os ouvidos nas maravilhas da arte, em artistica sensualidade, era o que lhe convinha, era o que cabia á sua edade, era o que havia de lhe trazer em recompensa o riso e a franca alegria de que tanto carecia e em que corpo e alma haviam de expandir-se salutarmente. A natureza protestava contra a clausura.
E os piedosos conselhos da mãe? Coitada! Illusões das almas simples; a verdade era muito outra. Não tinha sido vão o baptismo nas aguas de cynismo epicurista em que se iniciára pelos templos afamados da devassidão cosmopolita.
Era n'esta crise do seu espirito que lhe apparecia Emilia.
III
Em casa do dr. Carvalho, Claudio pouco fallou com Emilia, elle prezo a uma meza do whist, para ser agradavel ao juiz que sem isso se aborrecia, ella dansando sempre. Tinham vindo as Andrades, de S. Luiz, as Silvas, de Barrosas, raparigas novas, muito praticas em galanteios e n'esta especie de reuniões, de fluente banalidade. Animavam muito, dizia-se; com ellas e quatro estudantes que de Coimbra acompanharam o sobrinho do doutor, as valsas e as quadrilhas seguiram-se quasi sem interrupção. Á meia noite parecia haver certo cansaço, mas, como o doutor mandasse servir sandwiches e vinho da Madeira, a alegria renovou-se.
—Que bella noite! dizia um dos estudantes para as damas. O peior é ámanhã a cabra. Eu ainda não vi nem uma linha da lição. Provavelmente já não me deito. E ainda por cima as saudades... Não sei o que ha de ser de mim!
Uma das Andrades, que se agradara do rapaz e via já ali correspondencia amorosa para uns bons seis mezes, apressava-se a responder-lhe:
—Agora não esqueça o caminho!... D'aqui a pouco temos o Sagrado Coração de Jesus. Não falte. Quero ver...