—Pois eu suppunha-o um pobre diabo, só um pouco amigo de vinho.
—Não, muito longe d'isso! É d'uma grosseria e d'uma brutalidade nunca vistas. Eu conheço perfeitamente a historia d'essa rapariga, por um condiscipulo meu que era muito lá de casa d'ella e creio até que ainda parente.
E contou:
—Esta rapariga foi educada em Lisboa com poucos meios mas andando constantemente em muito boa roda, porque a familia era realmente muito fidalga. Os paes estavam quasi sempre por Penacova. Tinham ali proximo, no Chello, uns bemsitos, uma casa na villa, e para economisar,—coitados, não havia melhor!—viviam lá todo o anno, com excepção do tempo que passavam na quinta do morgado do Véro que os convidava muito, para os ajudar. Dos quatro filhos que tiveram, o mais velho, uma rapariga, morreu de variola, dos rapazes um assentou praça, creio que já está tenente, o outro que era um estroinão, foi para o Brazil, e esta, a Emilia, casou, mesmo em Penacova, com o Ricardo que ao tempo era escripturario de fazenda e que só depois foi nomeado escrivão, por muita instancia do morgado do Véro com o Marques Lino, deputado pela Louzã.
Foi um casamento de paixão. A rapariga vinha lá de Lisboa, habituada a muita convivencia e a muito namorisco, encontrou se só, não tinha mais ninguem que lhe fizesse a côrte e apaixonou-se. Os paes ainda se oppozeram, tinham-n'a educado com a esperança de lhe arranjarem um casamento rico, mas começaram, com estas cantigas do costume, a dizer-lhe que o Ricardo era muito bom rapaz, que não era o dinheiro que fazia a felicidade, e, como eram babosos pela filha e ella andava doidinha de todo, lá se deixaram levar e o casamento foi por diante. Ora o Ricardo não é tão papalvo como parece; o que elle é sei-o eu, um grande relaxado com muito pouca vergonha e muita impostura, que se convenceu de que a protecção da familia da mulher ainda o podia levar a escrivão de fazenda, como levou. Mas mal se apanhou servido, fez-se então um bebado descarado, sempre pelas tabernas, com amigas réles, e em casa com uma linguagem desbragada, dizendo toda a casta de obscenidade deante da mulher e dos filhos... É impossivel que esta mulher, para quem manobrasse com arte... Deus sabe até o que ella terá feito por outras terras!... porque não creio que ella com o genio desinvolto que tem e vendo o que o marido é e como a trata...
—Mas não consta nada?! interrompeu Claudio.
—Não... mas aquillo não falha. Estava bom para si que é novo e tem tempo para essas cousas!
—Para mim?
—Sim, para o senhor. Ainda queria melhor?
—Não são annos de fortuna! respondeu Claudio sorrindo e encaminhando-se para o centro da sala, d'onde vinha o juiz a despedir-se do Carvalho.