Emilia córou. Envergonhava-se da sua pobreza.

—Quem anda sempre com a mala ás costas, disse, sem paradeiro, não póde ter a casa em ordem. V. ex.a vae pasmar da nossa sumptuosidade.

—Que importa! apressou-se a responder Claudio, accudindo ao embaraço de Emilia. Bem pequena era a nossa casa de Villalva e viviamos lá contentes. Estou quasi arrependido de ter mudado.

O Ricardo mostrou a casa: a sala, dois pequenos quartos, uma sala de jantar e para além, indicava, a cosinha, a dispensa e um quarto para as creadas. Não tem mais nada; lá em baixo uma loja para a lenha, este pedaço de quintal que se vê d'aqui, e mostrava o da janella; serve para os pequenos brincarem.

—Um cantinho delicioso; só esta vista vale um palacio, dizia Claudio.

—Não estou descontente. Na Pampilhosa habitei uma casa que nem vidros tinha! Esta ao menos é mais limpinha.

De pé, em frente da janella, conversaram ainda algum tempo. Claudio pedia informações da casa, perguntava os limites da propriedade, quanto teria custado e se se vendia. Tinha pertencido a uns fidalgos de Penella, era agora d'um brazileiro, e provavelmente vender-se-ia porque elle trazia a propriedade muito desprezada e arrendada.

—É tentadora. Se fosse minha, fazia-lhe a casa um pouco mais abaixo, de fórma que podesse descobrir toda a varzea.

—Compre, compre, dizia Emilia. Que bom visinho!

—Não me quero prender, tenho ainda uma vida tão incerta... E não incommodo mais a v. ex.as, disse abruptamente, curvando-se e estendendo a mão a Emilia. Com a palestra ia a esquecer-me de que tinha vindo perturbar-lhes o seu socego. A culpa não é minha, a culpa é da amabilidade de vv. ex.as.