O dia livre para o estudo e para cuidar dos bens, a noite, essa noite que até agora tanto o enfadava, para as caricias da amante.
Talvez que o grande erro da sua vida, o motivo pelo qual nunca podéra seguir no estudo cingindo-se aos programmas que architectava, fosse esta ausencia de prazeres.
Tambem devia contar com elles, como homem que era, para a propria perfeição, para alcançar a plenitude de desenvolvimento mental a que aspirava.
Para isso a influencia da amante devia ser salutar, vinha preencher uma lacuna da sua existencia.
Os impulsos de namorado transformavam-se na alma de Claudio em esperanças de gozo, de paz e de saber, d'essa vida tranquilla e nobre; e, o espirito enlevado n'esta illusão, esperou alegre a noite em que havia de voltar a casa de Emilia.
Não foi no dia immediato áquelle em que lá esteve pela primeira vez. Mostraria uma pressa que ao marido se podia tornar suspeita, e vaidosamente resolbêra usar de todas as precauções que á sua conquista conviessem, como homem astuto e habil. Nem sequer lhe devia passar á porta.
Andou pelas suas terras, foi a Coimbra vêr os amigos, palestrou alegremente com o boticario, passeou bastas vezes no jardim, e assim consumiu o tempo d'estes dois dias que precederam a nova visita a Emilia.
Nada estudou e pouco pôde lêr; não se sentia em boa disposição, a alegria distraia-o, inquietava-o. Em pouco tempo, pensava, viria a tranquillidade, quando a sua vida estivesse definitivamente fixada.
Approximava-se a hora d'esse encontro em que punha tantas esperanças. Seria melhor vestir-se antes de jantar e poderia mesmo referir-se a esse facto na conversação que tivesse com ella; devia engrandecel-o aos seus olhos o habito elegante de, ainda na provincia e só, mudar de trajo para se sentar á meza. Mas entre o fim do jantar e a hora de sair medeiava um espaço de tempo em que não sabia que fazer... Era melhor vestir-se então e a Emilia diria do mesmo modo que se tinha preparado para o jantar.
Mentir! Não era isso tão mau, não lhe repugnava tão profundamente? Sim, mas por costume, por vicio de educação de que necessitava corrigir-se. Se a mentira era um instrumento proprio a conseguir o seu fim, porque não o havia de usar? A lucta pela vida, a lucta pela vida! Grande lei! N'essa é que precisava inspirar-se.