Encaminhou-se para a rua da Cruz. Estava ancioso e desesperado da sua anciedade. Sempre aquella fraqueza nos momentos difficeis! Difficeis não, porque aquelle não tinha a menor difficuldade. A consciencia da sua desproporcionada agitação mais o irritava. Que podia temer? Que o não recebessem? Não voltaria. Que Emilia se contrariasse com os seus galanteios? Teimaria; nem sempre se vencem campanhas em uma só batalha. Era pedir muito. Vaidade da sua parte; concluia. O que elle receiava era a infelicidade na sua empreza que tomaria por uma prova de incapacidade para as luctas do mundo. Coragem, firmeza! Não havia de succeder assim.
Em casa do escrivão, veiu abrir a porta a creadita descalça, correndo pressurosa, da cosinha, onde preparava o chá, mangas arregaçadas e o lenço mal atado, quasi solto, a cair-lhe nos hombros.
—A sr.a D. Emilia recebe? perguntou Claudio, suspeitando de que Emilia o ouvisse e procurando uma linguagem elegante.
—Os senhores estão na sala, respondeu promptamente a creada. Faça favôr de subir.
Proximo da meza, illuminada por um pequeno candieiro, Emilia costurava, um pequeno açafate pousado ao lado sobre uma cadeira, e Ricardo lia um jornal approximando-o da luz, tomando quasi toda a meza sobre que estendia os braços e o papel.
—Seja bemvindo! exclamou Emilia com uma irreprimida e franca alegria.
—Eu tinha promettido... começou Claudio.
—Faz-nos muito favôr, interrompeu Ricardo. Nos dias em que não tenho de ir a Coimbra é sempre esta semsaboria. Olhe, os pequenos já estão deitados; mal anoitece, começam logo a cair com somno. A Emilia passa o tempo com os farrapos. A mim, o que me vale é o Seculo. É muito bom jornal. V. ex.a não costuma lêl-o?
—Não, nunca o vejo.
—Pois é bom. Ás vezes traz tres folhetins! É o que me vale. E ainda assim, quando Deus quer, ás nove horas estou na cama. Quando quizer... faz-nos muito favôr.