Só Claudio é que saira descontente da rua da Cruz, descontente da sua inhabilidade, interiormente humilhado do seu procedimento. Não era aquella a conversação que tinha marcado como inicio de conquista; tinha feito tenção de fallar a Emilia da vida elegante e fôra contar-lhe intimidades de Villalva. Que imbecilidade! Que interesse podia ella ter na vida rustica da sua aldeia e da sua familia? Sempre infeliz!

O erro era querer ser aquillo que as aptidões naturaes lhe recusavam. E, depois, praticára uma ruim acção cujos aspectos negros a imaginação lhe avolumava, dando-lhe as proporções d'uma grande infamia; fallára a Emilia da morte do pae, a Emilia que d'antemão tinha considerado sua amante! Como, por que estranha aberração de todas as regras moraes, que tão cedo se acostumára a respeitar, confundia as cousas intimas e sagradas, aquillo que no seu coração havia de mais recatado e nobre, com os mais baixos dos seus apetites? Fôra inhabil e fôra indigno, e esta suspeita torturava-o.

A noite foi agitada; breve o somno feito sob esta oppressão. A fadiga e a frescura da madrugada trouxeram-lhe porém duas horas de repouso. Pelas sete horas da manhã despertava e a alegria da natureza, o bulicio do mercado, que era junto á sua casa, todo o fremito de vida proprio d'aquella hora conseguiram infundir no espirito de Claudio a tranquillidade perdida e porventura um vago contentamento.

Não! Exaggerava. Melhor fôra que não tivesse fallado da morte do pae, mas que mal houvera n'isso? Emilia não era sua amante. Era talvez, sob a apparencia de frivolidade, uma mulher digna; até o cuidado com que olhava pelos filhos, devia leval-o a julgar bem da sua honestidade. Os amores não tinham passado ainda da sua imaginação, e quem sabia se na sua imaginação morreriam! Tudo tinha remedio. Não havia de que se arrepender. Tivera confissões intimas com uma mulher que conhecia ha pouco, mas de cuja dignidade não tinha direito a desconfiar; a isto se reduzia a sua falta, se falta tinha havido. Não era motivo para inquietações.

Tranquillisado o espirito, Claudio começou a frequentar os serões de Emilia, duas ou tres vezes por semana.

Os fumos de conquistador pareciam apagados, lançara-os á conta das suas bastas phantasias, e entregava-se sem reserva á doçura d'um convivio em que sentia mal definido prazer. Fallára á mãe em visitar Emilia. Parecia-lhe muito boa rapariga, dizia, muito bem educada; havia de gostar d'ella.

—Ora, respondia a mãe, vou lá visitar fidalgas! Nunca me entendi com essa gente. Não saio do meu canto, estou velha para aprender costumes novos. E quem sabe lá o que ella será? Conhecel a ainda não ha um mez e já te parece uma santa. Caça d'arribação! dizia teu pae que Deus haja.

—É porque a minha mãe não a conhece. Em a conhecendo, ha-de gostar d'ella, verá.

Mas a velhita, na sua bisonha desconfiança, não se dava por vencida, meneando negativamente a cabeça.

Aos sabbados era a reunião em casa do dr. Carvalho. Claudio nunca faltava. Dispunha sempre as suas cousas de modo a que estivesse livre n'essas noites.