—Sangue quente! dizia Claudio apontando os que iam á frente. O sr. dr. Carvalho é que parece um rapaz, alegre e ligeiro...

—Foi sempre assim, respondeu a mulher do doutor. Muito rijo!

Claudio mostrava insistentemente a Emilia a belleza infinda das cousas por que passavam: a suavidade de colorido das primulas que bordavam a ribeira, os aljofares d'orvalho que cobriam o matto, os choupos tremulos na aragem da manhã, os pinheiros que se desenhavam nitidos na limpidez do céu, as vozes mysteriosas que se desprendiam do arvoredo. Queria que ella commungasse nas suas impressões e ella já não resistia.

—É bonito, muito lindo, respondia a cada instante.

O cantoneiro não os enganára. Passado o cume do monte, o caminho era ladeado de muros baixos, para defender os mattos dos rebanhos que passassem; continuava assim em longa distancia até que o pinhal começava a rarear e abria-se uma clareira. Tinham em frente, na margem opposta do ribeiro, uma ravina apertada por onde a agua corria, em pequenas cascatas, entre as azenhas e os pinheiros. Era a este logar que o cantoneiro se referira.

—Muito lindo! muito lindo! exclamavam todos.

Só uma das Silvas fez reservas.

—Sim, é bonito, disse; mas a nossa Albergaria não é peior. Só aquella abundancia d'agua!...

Desceram abaixo, atravessaram o ribeiro e subiram pelo carreiro que dava accesso ás azenhas. Pouco caminharam; estavam cansados, o calor já apertava, e, aos primeiros muros que encontraram entre a sombra do pinhal e á beira da agua, sentaram-se.

Claudio, sempre ao lado de Emilia, ia colhendo flores agrestes e fazia-lhe vêr as formas delicadas e os mimos de colorido que se perdiam ignorados por aquellas serras. Para que os jardins? A belleza espalhava-se por toda a parte, nas cousas mais triviaes, tudo estava em a perceber com olhos carinhosos.