—Não, replicou Claudio, é a verdade. Se vivesse um pouco commigo, havia de convencel-a. Estou certo de que mudaria de sentimentos.
Fez-se um breve silencio; e houve entre os dois como uma commum necessidade de recolhimento intimo. Elle pensava com mágoa quanto a concepção vulgar da belleza estava longe do seu ideal, ella ficára indecisa perante uma affirmação tão cathegorica, porventura instinctivamente subjugada pelo poder de insinuação de Claudio.
—Nem v. ex.a imagina o que isto é, disse Ricardo julgando de boa educação não deixar cair a conversa. Tudo uma miseria! O que eu não sei é como esta gente vive. Só no anno passado houve mais de cento e cincoenta contribuições relaxadas. Isto na predial, porque na industrial, com a lei nova, ninguem paga.
—É verdade, é, são pobrissimos, respondeu pacientemente Claudio, mas a pobreza tambem tem as suas alegrias e até a sua belleza.
Nova pausa, novo silencio, o silencio proprio do contacto de duas almas que se sentem em desharmonia e que ao mesmo tempo se veem attrahidas por mutua fascinação. O certo é que a conversa perdeu todo o movimento e, entre desconnexas interrogações, variando sempre de assumpto, assim chegaram a casa do escrivão de fazenda.
—E então até amanhã, por certo não falta em casa do dr. Carvalho. Tem grande festa, disse Emilia.
—Que remedio! São os annos d'elle e eu sou-lhe tão obrigado...
E no dia seguinte, emquanto Claudio se sentava a uma mesa do whist, ouvia entre duas solteironas o seguinte dialogo:
—Já reparaste como a Emilia está hoje elegante?
—É verdade, já vi. Está bonita. E é singular! Ella que costuma cuidar tão pouco de si...