Porque não havia de casar-se? Que vida daria ao seu lar a graça e a elegancia d'uma mulher? Mas não era facil encontrar quem com instinctos d'artista se sugeitasse á vida monotona de provincia.
Emilia crescia agora aos seus olhos e na sua admiração. Que rara fortuna possuil-a! E como devia ser infeliz, ligada a um homem grosseiro e bestial! Uma irrepremivel compaixão o aproximava d'ella e mais um laço ligava aquellas duas almas que, n'uma turva inconsciencia, se iam prendendo e confundindo.
Cerca das seis horas, chegaram a Albergaria. Claudio conduziu cada um á sua casa e todos se apartaram com palavras de reconhecimento e cordealidade.
—Queira Deus, dizia Claudio á mulher do dr. Carvalho, que v. ex.a não fique a dizer muito mal do passeio. Talvez que uns granulos de antipyrina...
—Não, respondeu o doutor. É muito sujeita a dores de cabeça. Em dormindo, fica bem. Isto não vale nada. Quem déra que todos os dias assim fossem!...
Claudio tornou-se inseparavel da familia de Ricardo. A cada passo se encontravam juntos: nos passeios, á tarde, pela estrada do Sobral; na egreja, á missa e em dias de festa; á noite, em casa do dr. Carvalho e pelos serões da visinhança. Na botica estranhava-se a mudança de Claudio; commentava-se já com risos maliciosos e palavras mordazes. Só elle ignorava o que se dizia; feliz de tanta e tão bella amizade, a ella se entregava inteiramente e ingenuamente transformava em sentimentos puros, d'esta vez sem plano nem preoccupações scientificas, os projectos de conquistador com que dois mezes antes entrara em casa de Ricardo.
Entre Claudio e Emilia fazia-se rapidamente a permuta de habitos e costumes que é de regra entre amantes; ella cedia dos seus prejuizos lisboetas para admirar a natureza e conformar-se com a paz provinciana, elle esquecia a simplicidade de Villalva, o estudo e os propositos de vida laboriosa, para se confundir nas futilidades em que imaginava bom gosto e arte.
De facto, nenhum mudára; ambos passavam apenas por uma crise d'amor que lhes transfigurava o aspecto das cousas.
Para Emilia a natureza era um adorno, como as flores na meza do glutão que, só cubiçando as viandas, se compraz todavia cercando-as de frescura e perfumes; nada podia dizer ao seu mesquinho espirito a vida gigantesca da terra, o drama eterno e mudo em que os elementos se combatem e amam, captivantes de mysterio, insondaveis na profundeza dos seus destinos. Nem as arvores nem as aguas nem as montanhas podiam ter significação aos seus olhos apartadas da voz do amante e dos seus doces olhos, as brizas do poente que á tarde varriam a atmosphera ardente do estio, a sombra do loureiro que á hora da calma a protegia, o murmurar dos regatos e o canto apaixonado dos rouxinoes ao luar eram unicamente a faustuosa decoração do theatro em que se lhe revelava a imagem de Claudio, mas valiam aos seus olhos tanto como a rutilancia dos cristaes, das sedas e dos salões dourados em que o seu temperamento se formára.
Por sua vez, Claudio caia n'uma illusão parallela: pensava que Emilia lhe revelava um mundo novo de elegancia e arte, lançava á conta de rudeza a simplicidade que em tempos, que agora lhe pareciam distantes, adorava na casa de seus paes, e tomava por alargamento e complemento da educação do seu espirito a frivolidade a que só o arrastava a anciedade de se impregnar das graças da sua amada.