A mãe de Claudio não se julgava no direito de pôr estorvos á sua vontade, desde a morte do marido; nos seus inveterados habitos de servir e obedecer, considerava o filho o seu senhor. O Ricardo, ou fosse ignorancia, aliás nada provavel, dos amores da mulher, ou fosse um cynico interesse na amisade de Claudio de quem sempre esperava protecção e com cuja bolsa contava para os momentos difficeis, amiudando e prolongando as suas noites de Coimbra em casa da amante, acabára por deixar Emilia n'um desafogo que lhe permittia longas horas do mais repousado amor.

Os tormentos vinham da consciencia. Claudio não encontrava solução moral que importasse justificação plena do seu viver. A duvida e a inquietação eram constantes, permanentes; cavavam-lhe na alma abysmos de mysterio, perante os quaes a todo o instante tremia e se apavorava. O mais pequeno incidente revolvia toda essa vasa que o suffocava, um dia de ciumes de Emilia, a suspeita de que o tinham visto entrar na capella, um gesto, uma palavra de sua mãe, condemnando os desvarios do adulterio.

Por outro lado, Emilia descia aos seus olhos. Saciados os apetites que as graças do seu corpo despertaram, via em plena nudez a inanidade do seu pensamento moral.

Instinctivamente boa e simples, amando Claudio ingenuamente com o afferro caracteristico das mulheres apaixonadas, era todavia incapaz de se elevar á comprehensão das duvidas que o agitavam; e ella, que se sentia contente com a sua sorte, não percebia que o amante podesse, sem reservas, deixar de partilhar o seu contentamento.

Presentiram o juizo que o publico formava das suas relações? Adivinhavam-n'o, e até se esforçavam por lhe tirar toda a apparencia de razão; mas viera tão cedo e em tal calor de paixão que não constituira mais que um passageiro desgosto com que ambos em breve e facilmente se conformáram. Que tinham os outros com a sua vida? Olhassem para si que teriam bem de que fallar. Que fazia o Carvalho sempre de braço dado com a Silva? E a outra não ia casar com o Maia? Uma miseria! Só por causa da fortuna.

Era sabido que ella na Figueira tinha namorado um rapaz de Lisboa que lhe vinha fallar ao terraço, á uma hora da noite.

Um dia, na primavera, exactamente tres annos depois que conhecera Emilia, Claudio recebeu uma carta de seu amigo Jorge de Castro, annunciando-lhe uma proxima visita.

Visto que elle, Claudio, se mettera a ermita, resolvia o Jorge ir abraçal-o; que preparasse os cavallos, queria visitar todas as aldeias suas conhecidas, que a visita não era só para elle, era tambem para aquelles montes de que se lembrava com saudades.

A carta respirava uma grande alegria, denunciando uma natureza sã, vigorosa. Claudio leu-a com tristeza. Porque não havia elle de viver assim contente?... Scismava. Talvez o Jorge lhe revelasse o segredo d'aquella fortuna.

Respondeu lhe immediatamente. Exultava. Os cavallos estavam promptos, tinha-os n'aquelle momento ligeiros como gamos, do campo de Coimbra. Traçava já varios passeios, em Albergaria e em Villalva onde lhe queria mostrar os jardins que créara no meio de rochedos. Promettia-lhe mais varios regalos da mesa provinciana, que o amigo apreciava, bons patos com arroz, uma preciosa vitella vinda da serra e vinhos da varzea de Villar que não os havia melhores. Que viesse quanto antes. Até precisava muito conversar com elle, accrescentava laconicamente.