11 E ainda que as terras saõ differentes em arvores, e frutos, os de Portugal saõ tantos, e taõ bons, que se produzem nelle todos os que nas outras partes saõ estimados; porque de frutas de espinho tem por toda a parte admiraveis Laranjas da China, doces, e bicaes, a que os estrangeiros chamaõ frutas propriamente de Portugal: prodigiosas Limas da serra d’Ossa, Limões em Colares, Cintra, Peninha, Loures, Póvos, Azeitaõ, Setubal, Couto do Bouro, Condeixa, Borba, Santiago de Cacem; e as admiraveis Cidras do Landroal.
12 Das frutas de pevide tem especial estimaçaõ as Camoezas de Thomar, Alcobaça, Torres, Lourinhã, Montemór o Novo: saborosissimas Peras de muitas castas, e nomes: De Rey, de Conde, Bergamotas, Bojardas, Cornicabras, Carvalhaes, Conforto, Flamengas, Gervasias, Codornos, de Rio frio, Engonxo, de S. Bento, de Bom Christaõ, Virgulosas, e Lambe-lhe os dedos, com as formosas, e appetitosas Maçãs de Abrantes, Baunezas, Leirioas, Melapios, Repinaldos, Verdeaes, e até Rainetas de França na Villa de Mafra, com outras muitas, que em dilatados, e frescos pomares daõ que invejar a Reinos estranhos, pois só na Villa de Montemór o Novo ha quatrocentos pomares de regadio muy deliciosos.
13 Antecipaõ-se a estes deliciosos productos aquellas frutas de caroço, que lograõ universal estimaçaõ por primeiras, e por gostosas: taes saõ as Cerejas de Palayos, Busselas, e Pampilhosa, e as chamadas de Saco da Lousã, Coimbra, Leiria, e Portalegre: as Ginjas garrafaes de Lamego, Borba, e Alenquer: as Frutas novas, e Ameixas reinoes de Montemór o Novo, com as Brancas, Saragoçanas, e Abrunhos de Cintra, Collares, Azeitaõ, e Cezimbra: os gentis Figos lampos, e Perinhas de cheiro do termo de Lisboa, e Setubal, com os graciosos Damascos, Alperches, e Pessegos de tantas castas em Abrantes, Aviz, Azeitaõ, e Villa-Franca, sem nos esquecermos das mimosas Amoras, e Morangos, e das bellas Uvas moscateis de Jesus, Tamaras, Ferraes, Diagalves, e Malvazias de Punhete: do chamado singular Bastardo de Cassilhas, Barreiro, e Almada, com os seus excellentes, e incomparaveis Figos brancos: dos selectos Melões da Vellariça, Chamusca, Arrayolos, Benavente, e Muxagata: das doces, e vermelhas Melancias de Patayas junto da Nazareth, de Coruche, e Chamusca: das Romãs, Marmellos, e Gamboas de Santarem, com a quantidade sem numero de Castanhas verdes, e piladas da Beira, e Minho: de Amendoas, Passas, Figos, e Alfarrobas do Algarve, principalmente de Estoy: Nozes, Sorvas, Nesperas, e Avelãs da Estremadura: Bolotas, Azeitonas, e Pinhões do Alentejo, sem fazermos caso dos Medronhos, Murtinhos, Camarinhas, e Amoras de silva, que a natureza como frutos agrestes produz nos matos, e nas charnecas: a que se podem ajuntar as chamadas Tuberas da terra, de que a Béja se vaõ vender aos alqueires, e saõ especial prato, ou feitas à semelhança de Coelho, ou à imitaçaõ de favas.
14 Seguia-se lembrarmo-nos das hortaliças, que naõ tem que invejar as nossas cousa alguma às de Italia, ou França; pois em parte alguma haverá Couves taõ grandes, e Nabos taõ monstruosos, que se possaõ igualar com as da Beira, especialmente as Murcianas de Azeitaõ, e Setubal: Repolhos da Villa do Conde: Cardos das hortas de Béja, e Baleizaõ, e toda a hortaliça de Santarem: e muito menos com a riqueza, regalo, e recreaçaõ das muitas quintas, e hortas, tendo só Lisboa em si, e seu termo mais de sete mil; porém toda esta especie naõ cabe na memoria por infinita, e da mesma sorte a copiosa fertilidade de legumes de todo o Riba-Tejo, raizes, arbustos, e hervas comestiveis, e aromaticas. Só com as medicinaes pudera Portugal supprir os balsamos, as massas, e especiarias da India, se os Portuguezes foraõ mais curiosos em se dar à intelligencia da Botânica, ou virtude das hervas, e plantas, sendo certo, como confessaõ os estrangeiros,[282] naõ haver terreno mais bastecido, e fertil de hervas medicinaes, que Portugal, ainda no mais escabroso das suas serras.
15 Assim vemos que por ellas cria a natureza prodigamente sem a diligencia da cultura o Alecrim, a Arruda, o Aypo, a Argentina, a Alfavaca de cobra, os Almeirões, os Agrões, a Agrimonia, a Artemija, a Avenca, as Azedas, a Bisnaga, a Borragem, o Cardo santo, a Carqueja, a Celidonia, a Centaurea, a Congossa, a Douradinha, a Dormideira, o Endro, o Ensayaõ, a Erva cidreira, a Erva doce, a Escabiosa, a Escorcioneira, a Eufrazia, o Funcho, a Filipendola, o Gilbarbeiro a Hepatica, a Hera, o Hyssopo, o Jaro, a Labaça, o Lirio, a Lingua de Vaca, a Losna, a Macela, a Malva, o Malvaisco, a Mangerona, o Mastruço, o Marroyo, o Meimendro, o Millefolio, a Moleirinha, a Murta, o Nardo celtico, a Neveda, o Oregaõ, a Ortelã, as Papoilas, a Peonia, a Pimpinella, os Poejos, a Rabaça, o Rosmaninho, a Salgadeira, a Salsa, o Saramago, a Segurelha, a Sanguinaria, a Semprenoiva, a Serpentina, a Solda, a Tamargueira, a Tanchagem, o Tomilho, o Trevo, o Trovisco, a Valeriana, o Verbasco, a Versa, a Veronica, a Viola, e outras de experimentada virtude, e prestimo,[283] de que tambem os multiplicados enxames de abelhas se aproveitaõ para a fabrica do mel nos excellentes colmeares, principalmente nas serras de Serpa, Portel, termo de Palmella, e toda a Provincia de Tras os Montes, que costuma repartir com os visinhos: naõ sendo menos util a copiosa colheita do Linho, Grã, e Esparto das Provincias do Minho, Beira, Estremadura, e Algarve, de que tanto se aproveitaõ as Nações estrangeiras.
16 Ainda para recreyo dos sentidos, vista, e olfato se mostra a natureza taõ provida, e liberal em nossos campos na producçaõ de infinitas flores, humas brancas, outras encarnadas, outras roxas, outras amarellas, azuis, e verdes, que naõ ha monte, nem valle, que no tempo do Veraõ deixe de respirar alegria, e suavidade com o esmalte, e fragrancia das Boninas, Junquilhos, Mosquetas, Lirios, Madresilva, Legacaõ, Azareiro, Giesta, Murta, Flor de laranja, e outra muita diversidade, que exhalando agradavel cheiro, nascem, e se criaõ em qualquer prado, compondo hum continuado ramalhete; porque a industria da arte nas cercas, e nos jardins tem em todo o anno constante o Abril, e florecente a Primavera com vistoso matiz de Amarantos, Ambretas, Amores perfeitos, Angelicas, Aquilegias, Araras, Assucenas, Artemijas, Azareiros, Anemolas, Bordões de S. Joseph, Botões de ouro, Barboletas, Caracoleiros, Caxias, Cravos, Cravinas, Disciplinas, Ervilhas de cheiro, Esporas, Flores pombinhas, Flores do Cabo de boa esperança, Flores de Liz, Girasoes, Goivos, Jasmins, Jacintos, Junquilhos, Lilazes, Malmequeres da sessia, Malvas da India, Maravilhas, Mauritanas, Margaritas, Melindres, Mogarins, Narcisos, Noturnos, Novelos, Orelhas de Urso, Papagayos, Papoulas da India, Perpetuas, Piramides, Primaveras, Rainunculos, Rosas, Saudades, Selindres, Suspiros, Tulipas, Valverdes, e Violas, com as frondosas latadas de Caracoes, Trepadeiras, Chagas, e Martyrios, e o verde adorno dos crespos, e cheirosos Mangericões.
17 Quanto ao Peixe, além de o gabar Marineo Siculo,[284] e Botero,[285] tem Portugal razaõ forçosa para o ter em abundancia, e muy saboroso, por ser hum Paiz verdadeiramente maritimo, lançado, e estendido pela costa do Oceano, onde o mar continuamente o está regalando de differentes peixes, huns mayores, outros menores, merecendo especial memoria os deliciosos Salmões do Minho: as gabadas Azevias de Alhandra: os raros Solhos, e Tainhas do Sado: os saboros Saveis, e Lampreas do Mondego, e Coa: as Douradas, Escolares, e Atum do Algarve: os Salmonetes, Linguados, Redovalhos, Bezugos, e Sardas de Setubal: as admiraveis Trutas, e Mugens da Beira, e Minho: as selectas Bogas, Barbos, e Escalhos de Alviella: os Ruivos de S. Joaõ da Foz, e Villa do Conde: as famosas Pescadas, e Curvinas de Cezimbra, Cascaes, Ericeira, Caminha, e Esposende: os Congros, e Roballos de Peniche, e Buarcos: os Safios, Eirozes, Cachuchos, e Gorazes do Tejo. E deixando de particularizar outras innumeraveis especies de peixe, que os rios, ribeiras, e lagoas nos tributaõ com a fecunda pescaria de Sardinhas, e Carapáos, e os celebrados Camarões de Villa-Franca, com os saborosos cardumes de Ostras, Bribigões, e mais Mariscos de Aveiro, e Setubal, vimos a concluir, que de tanto genero de mantimentos, e regalos, com que nos provê benigna a natureza, se vem a fazer hum todo admiravel contra o que diz Virgilio, que non omnis fert omnia tellus, pois todas as cousas vemos em tanta copia juntas nesta opulenta Peninsula.
NOTAS DE RODAPÉ:
[269] Argot. nas Antiguid. da Chancel. de Brag. pag. 382.
[270] Strab. lib. 3. Athen. lib. 4. Gymnosoph. Polyb. lib. 38.