13 Desta magestosa armonia procede fazerse o idioma Portuguez apto, e opportuno para todos os estylos, e assumptos, e para o verso com especial propriedade. Tal era o apreço, e estimaçaõ, que as Musas Castelhanas faziaõ da nossa lingua para expressar quaesquer affectos por meyo do Numen, ou Enthusiasmo Poetico, que deixavaõ a sua lingua para compôr no rithmo Portuguez. Assim o affirma Argote de Molina,[372] allegando humas Coplas Portuguezas de Macias, Poeta Castelhano: Si alguno le parecer que Macias era Portuguez, esté advertido, que hasta los tiempos delRey D. Enrique III. todas las Coplas, que se hazian, commummente por la mayor parte eran en aquella lengua. De maneira, que assim como em Italia entre todos os idiomas era a lingua Provençal a escolhida para o verso por todos os Poetas, ainda que naõ fossem Provençaes,[373] assim na Hespanha era reputada mais propria para a Poezia a locuçaõ, e fraze Portugueza por todos os Poetas Hespanhoes, por lhe acharem genio, e caracter especial para isso. Com o governo porém delRey D. Joaõ I. que mandou usar da lingua Castelhana nas cousas publicas, de entaõ para cá deixaraõ os Castelhanos de compor versos no idioma Portuguez.[374]
14 A vantagem de escrevermos da mesma sorte, que pronunciamos, tambem he huma das perfeições, que se encontra na lingua Portugueza, e que se naõ acha nas outras, porque só assim se dá huma regra geral, para que todos observem huma igual orthografia; pois as etymologias ainda das linguas mais doutas sempre saõ distantes, e incertas, e como já mortas se tem corrompido, e alterado muito, havendo varias palavras Portuguezas, que se derivaõ de outras linguas mais modernas, e naõ entroncaõ com a Latina, Grega, Arabiga, e Hebraica, senaõ depois que as Nações menos antigas beberão nas fontes, e alteraraõ a sua nativa pureza.
15 Neste particular tem grande força o uso, e por isso o grande P. Vieira, revendo os seus proprios livros, (aos quaes só elle podia emendar,) disse onde imprimiraõ Devoçaõ, lea-se Devaçaõ; mas o primeiro ficou prevalecendo. Alguns Compositores se tem mostrado nimiamente declarados por esta parte, querendo que a palavra Homem, e outras assim semelhantes se escrevaõ sem H, como os Italianos. O melhor he seguir a mediania, como fazem os doutos, cujo exemplo he só assequivel, e naõ proceder com affectaçaõ, e estravagancia, assim como fez certo Author moderno, (posto que engenhoso) em huma nova orthografia, que usa, pondo tambem ligados dous rr no principio da dicçaõ,[375] contra toda a norma, e costume dos eruditos. Outras muitas propriedades, e predicados da nossa lingua observou curiosamente o Chantre de Evora Manoel Severim de Faria no discurso, que temos allegado.
NOTAS DE RODAPÉ:
[345] Monarq. Lusitan. liv. 2. cap. 5.
[346] Matut. Prosapia de Christ. Edad 2. cap. 4. § 8. Marin. Siculo, Garibay, e outros apud D. Thomaz Tamayo na Defensa de Flavio Dextro p. 103.
[347] Gandara, Triunf. del Rein. de Galiz. no Append. cap. 5.
[348] Monarq. Lusit. ut supr.
[349] Plin. lib. 3. cap. 1.
[350] Strab. lib. 1. & lib. 15. Vasæus lib. 1. cap. 11.