18 Caldelas. Na Freguezia da Magdalena, termo de Thomar, existe hum Lugar com este mesmo nome, de que infere o Author da Corografia[53] houvera alli antigamente a Cidade Caldede. E junto da Ermida de S. Pedro se descobrem ainda muitas pedrinhas quadradas de varias cores, que parece serviaõ em Templos, ao modo dos nossos azulejos. Descendo do sobredito Lugar, apparecem por algumas quebradas pedaços de arcos de pedra, e canos de metal, por onde lhe vinha agua de longe. Tambem seus moradores tem achado algumas ferramentas de lavoura, e moedas de cobre, das quaes confessa Jorge Cardoso[54] conservava huma com a effigie de Antonino Pio de huma parte, e da outra a figura do rio Tibre.

19 Caliabria. Foy huma grande povoaçaõ dos Romanos, que existio na Comarca de Riba Coa sobre o rio Douro no cimo de hum monte, que dista huma legoa de Villanova de Foscoa entre o Norte, e Nascente, a cujo sitio com pouca corrupçaõ seus moradores ainda hoje chamaõ Calabre. As ruinas de suas muralhas daõ claros indicios da sua grandeza, como bem diz a Monarquia Lusitana liv. 5. c. 24.

20 Cambeto. O doutissimo Padre Argote intenta mostrar[55] que esta Cidade estava situada onde agora chamaõ S. Salvador de Cambezes no Couto do Luzio, termo de Monçaõ; porém no mappa da antiga Lusitania, composto por Abrahaõ Ortelio, a vemos situada com o nome de Cambetum Lubenorum na altura de 41 gráos de latitude, e 13 de longitude, que deita mais para a Provincia de Tras os Montes, que do Minho.

21 Campos Elysios. Anda introduzida nas Historias de Hespanha a antiga existencia destes campos constituidos de ameno, e delicioso temperamento; mas como cada hum os leva para o terreno, que lhe figura o desejo, he justo que averiguemos isto em beneficio da verdade com alguma mayor extensaõ. Pertendem os Authores Castelhanos[56] collocallos huns em Sevilha, outros em Andaluzia, outros em Cordova, e em diversas outras Provincias. Os nossos Escritores[57] querem huns que estivessem na Provincia do Minho, outros no Algarve, e outros na Estremadura nos campos vizinhos de Lisboa, chamados Lysirias, como se dissessemos Elysirios ou Elysirias; porém o certo he que naõ estiveraõ em parte alguma de Hespanha.

22 Dizem mais, que estes campos eraõ cheyos de summa delicia, onde todo o anno havia perpetua Primavera, e estaçaõ florente, para o qual hiaõ as almas dos Varões famosos descançar, como em premio de suas proezas. O primeiro Author que innovou esta fabula, foy Homero,[58] o qual introduzindo a Ulysses nas prayas do Oceano, lhe encarece a bondade do clima; porém o sentido daquelle grande Poeta, segundo a mais racionavel conjectura, foy encubrir com a supposiçaõ dos campos Elysios a noticia, que aprendeo em os livros de Moysés do sagrado Paraiso.

23 Prova-se com o que diz S. Gregorio Nazianzeno,[59] que os Gregos, offerecendose-lhes no animo certa especie do nosso Paraiso, o deraõ a entender (ainda que discrepando alguma cousa em o nome) com outros vocabulos, tomando-o de Moysés, e dos nossos livros. O mesmo reconheceo Proclo de Hesiodo, pois ainda que confunde com o commum erro dos demais Gregos as Ilhas dos Bem-aventurados com os campos Elysios, escreve,[60] que quando aquelle Poeta nomea as Ilhas dos Bem-aventurados, parece significar o Paraiso, ou o campo Elysio, chamado assim, porque conservava indissoluveis os corpos. Christiano Bechmano[61] comprova o mesmo parecer, convindo em que o Elysio dos Gentios naõ foy outra cousa, que expressado debaixo de alguma sombra.

24 E pois he constante foy Homero o primeiro, em quem se offerece celebrada a amena felicidade dos campos Elysios, naõ parece dubitavel expressar nelle o Paraiso, quando S. Justino Martyr constantemente assegura[62] tivera noticia delle o tal Poeta: ajuntando-se a isto o quanto se conforma o aprazivel clima, e deliciosa morada dos campos Elysios de Homero com o que referem as sagradas Letras teve o Paraiso, que a nossa vulgata chama do Deleite, substituindo assim a voz Eden, que conserva o Hebreo, como adverte S. Jeronymo.[63]

25 Disto se collige, que o animo de Homero naõ foy collocar os campos Elysios na Hespanha, como julgou Estrabo,[64] a quem seguiraõ os mais, que os situaõ nella; porém só quiz expressar com este nome o Paraiso sagrado, de que faz memoria Moysés.[65] A causa porém, que commoveo ao Poeta para collocar os sobreditos campos no ultimo Oceano, foy por seguir a opiniaõ dos Orientaes, que affirmavaõ estivera o Paraiso distante da terra habitada no mesmo Oceano, como seguio Santo Efrem, conforme allega Moysés Barcepha,[66] e Malvenda.[67] Com esta breve demonstraçaõ nos parece ficaráõ estes campos fantasticos excluidos inteiramente das nossas Provincias.

26 Canace, ou Canali. Conforme diz Rodrigo Caro,[68] foy esta huma Cidade, que Ptolomeu sitúa no Algarve, e assim a vemos collocada na carta de Ortelio por cima de Tavira; porém Severim de Faria escreveo ao Author da Benedictina Lusitana, dizendo-lhe, que a Cidade de Canace estivera no sitio da Serra d’Ossa, onde chamaõ Val de Infante, quatro leguas affastada de Evora.[69] Hauberto tambem a constitue junto de Evora, e faz memoria de S. Mauricio Abbade Basiliense, que padecera aqui martyrio.[70]

27 Capara. Padeceo engano Hauberto em dizer que ficava esta Cidade junto de Evora,[71] porque, segundo a melhor conjectura, foy Cidade habitada pelos povos Vetones, segundo Ptolomeu; e Ortelio a poem quasi na latitude de 40 gráos, e 13 de longitude. Hoje fica fóra dos limites de Portugal, e como diz Argaes,[72] pertence ao Bispado de Placencia.